Crítica | A culpa é da ciência? por Fabrício Muriana

Uma crítica experimental

Foto: Zuza Blanc

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10 anos que ainda são 9.
auditório de uma universidade: escolha feliz pra questionar a ciência.
citações de filmes adequadas ao conteúdo ,mas algumas delas na hora errada. quando aparecem o Neo e o Morfeu logo no começo, sem contexto nenhum, quase achei que fosse ver a versão teatral de Matrix.
figurinos que tiram as formas dos corpos dos atores.
cenário cheio de parafernálias, com homenagem tímida ao Duchamp que não vira cena.
músicas por vezes incompreensíveis, por vezes didáticas, por vezes clichês. algumas vezes só ruídos.
piadas das quais ninguém ri. momentos sérios extremamente cômicos.
uma peça com cota para afro-brasileiros e para comemoração dos cem anos da imigração japonesa.
um personagem que apresenta questões filosóficas tomando uma coca-cola. idéias que, por vezes, são como pontadas que nos fazem acordar, outras vezes, não se concretizam em cena.
atores não parecem preparados pra saborear o texto, que inclusive às vezes não se apresenta saboreável.
ao mesmo tempo em que os corpos parecem despreparados, também parecem paradoxalmente preparados por serem quase como máquinas.
curioso notar como as cenas que criticam (portanto colocam em crise) a ciência, também colocam em crise a sociedade de consumo.
aparece muito mais a relação econômica por trás do motor da ciência do que a ciência em si.
vende-se célula-tronco. vendem-se fetos. vendem-se partes do corpo sob encomenda no atacado. vende-se alma, mesmo que esteja fora de moda. aliás, fora de moda é vilão falando espanhol.
solução extremamente simples a de colocar pesquisas “opostas” de universidades. demonstra a lógica de competitividade e a conseqüente incomunicabilidade entre pesquisadores.
roubam no jogo ao colocarem atores falando diretamente com o público. não funciona. tudo seria mais intenso se virasse cena.
roubam de novo quando dão destaque apenas a uma visão de assuntos polêmicos como transgênicos e aborto.
o que parece uma obra inacabada para o grupo pode ser considerado um avanço em direção da busca de estéticas teatrais diversas do naturalismo encontrado em Einstein e Copenhagen.
assisti essas duas montagens na época de colegial, em que não havia estudado naturalismo nem na literatura. e me bastavam àquela época. linguagem e estética é uma questão temporal, mas também uma de percepção.
gosto de pensar que peças assim ainda ganham o fomento.
mas também não precisa escrever no programa que está dando um salto sem rede. essa é velha.

2 frases excepcionais da dramaturgia

Publicado em 8, July, 2008