Crítica | A Exceção e a Regra por Juliene Codognotto
Quase pedi meus dez reais de volta!
Foi por pouco que não pedi pra sair.
O palco do Teatro Fábrica (Rua da Consolação) estava organizado de uma maneira bacana, transformado numa espécie de corredor, com a platéia disposta dos dois lados para assistir a A Exceção e a Regra. Isso me empolgou, no começo. Só no começo. Depois de 10 minutos eu já me perguntava: “Jesus, o que eu estou fazendo aqui?”.
A primeira etapa do espetáculo dá a sensação de que não passa de uma fábula mal encenada, com arroubos de interação constrangedora com o público e atuação mediana, quase descomprometida. A história apresentada trata de um explorador do ramo de petróleo, que viaja pelo deserto em busca de uma concessão. Leva com ele dois trabalhadores contratados, um guia (sindicalizado e cheio de si) e um carregador (totalmente conformado). A expedição enfrenta uma série de problemas, culminando com um funcionário demitido e outro morto pelo patrão. O julgamento absolve o homem de negócios, que, corrompendo a Justiça, não precisa pagar indenização à esposa do carregador.
Eu quis ir embora. Mesmo. Ainda bem que me segurei (até porque teria que passar no meio do palco-corredor e não ia ser lá muito discreto - será que isso é uma tática?). O fato é que só na segunda etapa o grupo revela a verdadeira aposta da adaptação do texto de Bertolt Brecht: o chamado “teatro-fórum”. Baseado em concepções de Augusto Boal, a idéia é fugir da catarse de Aristóteles e deixar que cada um faça suas reflexões e tire suas conclusões. Mas não é só. Você pode, além de tirá-las, colocar suas conclusões em prática e testá-las, quase quantas vezes quiser.
Eu explico: ao final da fábula, o público é convidado a discutir se havia maneiras de tudo ter sido diferente, ou seja, descobrir qual personagem, em que momento, poderia agir diferente e evitar a tragédia. O que se vê daí por diante, é uma platéia que passa rapidamente das pequeninas intervenções tímidas até o desespero de procurar soluções e dividir com os outros, ou impor a eles, as próprias idéias.
Cada pessoa que opinava era convidada a encenar com o grupo sua alternativa que, invariavelmente, não levava a grandes mudanças. O que começou com uma opinião envergonhada, tornou-se um debate intenso que durou mais tempo do que a própria fábula. No final, chegou-se à conclusão de que não havia nenhuma maneira simples para mudar o ocorrido e que todos os caminhos levam à exploração do homem pelo homem, à violência e à corrupção. Resultado: a gente sai do teatro incomodado e fica dias pensando: “Porra! O que aquele filho da puta daquele carregador poderia ter feito???”
O mais interessante e diferente é que, mantendo o canhoto da peça, você pode voltar e tentar encenar qualquer idéia genial que você tiver no banheiro da sua casa. E de graça. É, os caras querem ter o próprio saco enchido pelo público. Se entregam total e estão superdispostos a encenar todas as propostas, até esgotarem-se as idéias, porque parecem, de fato, em busca de alguma resposta.
O maior problema é que sempre vai ter um chato na sua sessão falando mais do que a boca. Mas chato tem em todo lugar.
3 marxistas tretando
Publicado em 17, April, 2007

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