Crítica | A Invenção de Loren por Leca Perrechil
Só me resta dançar um tango argentino
- Tá complicado, né! - exclama uma das atendentes da empresa de comercialização de amigos imaginários.
Essa fala resume bem o que é o espetáculo A Invenção de Loren, com direção de Ana Roxo e Daniela Evelise, texto de Roxo, e figurino da velha conhecida da Bacante, Mira Haar, inesquecível no papel da mãe de Lucas Silva e Silva, e para esquecer na peça Mammy Vai à Lua.
No texto, uma agência oferece amigos imaginários aos seus solitários clientes, através da implantação de um chip (slides) na cabeça. Essa idéia teria sido inventada por Loren, e apropriada por Micaela, quando esta teria achado seu caderninho de anotações. A sinopse acima está no tempo verbal futuro do pretérito composto, porque a trama é recheada de reviravoltas, deixando o espectador curioso.
Em alguns casos, instigar o máximo a platéia traz ótimos resultados. Justamente, não é esse o caso da peça de Ana Roxo. O público fica perdido quase o tempo inteiro, enquanto os atores dançam tango, contracenam com slides, dançam tango, contracenam com slides, dançam tango, dançam tango, dançam tango e contracenam com slides. Depois de uma nova dança de tango, o espectador finalmente entende a trama. Mas isso não garante a satisfação do espetáculo, já que o enredo é confuso e traz soluções frágeis.
Apesar disso, a autora acertou em tratar de temas tão contemporâneos dentro de uma sociedade como a nossa: as questões da identidade e da solidão. Principalmente na cidade, onde o número de pessoas que vivem sozinhas é muito grande, a peça mexe com esse sentimento da busca constante por alguém que a entenda. Encontrar companhia, fugir do isolamento imposto e tentar compreender o seu papel nisso tudo.
Todas essas informações ficam implícitas em meio a danças de tango, danças de tango e personagens contracenando com slides. Esse último recurso foi adotado para demonstrar para a platéia como seriam os tais amigos imaginários. Apesar das projeções serem bem toscas, em alguns momentos ficam interessantes, como quando as atrizes contracenam primeiramente com um espaço vazio, e cenas depois, falam o mesmo texto ao lado dos “desenhinhos”.
A encenação brinca também com as atendentes de telemarketing, ao abusar do gerundismo e da burocratização dos serviços realizados através do sistema telefônico. O texto faz alusão também ao conservadorismo em relação às regras escritas, já que às vezes nem essas trazem a verdade absoluta.
A ficção científica peca pelo exagero da trama ao expor sentimentos simples. Busca através do imaginário, retratar emoções muito humanas, algumas esquecidas ou coibidas pelo dia-a-dia. O problema do espetáculo é ofuscar todas essas boas intenções da montagem em uma história amalucada não muito empolgante.
Adendo: Para a citação no início do texto não ficar pobre e nem preconceituosa, e assim, o texto ficar redondinho, um comentário final: sim, Mira Haar é melhor figurinista do que dramaturga.
2 amigos imaginários não entenderam a peça e 1 foi pisoteado durante o tango
Publicado em 2, July, 2007

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