Crítica | A Julieta e o Romeu por Anônimo

Coragem de rir

Em respeito à Semana do Anônimo Feliz, não identificaremos o autor deste texto.
Foto: Vitor Damiani

Não, não é mais um Hamlet (aliás, fica avisado que a Bacante não cobre mais Hamlets este ano). Apesar de ter uns trechos de “ser ou não ser”, o espetáculo A Julieta e o Romeu é, na verdade, uma grande brincadeira séria de dois palhaços que utilizam fragmentos de obras de William Shakespeare (Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo e Macbeth ) para poder rir, com toda a liberdade, dos atores, de seus apegos e de suas técnicas.


Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria - aquele grupo de palhaços que visita hospitais - disse em entrevista que “o processo de ser palhaço é a pessoa no seu aspecto mais inocente, mais bobo, dividindo o ridículo com as pessoas”. Não há como discordar. Mas, para além de expor o próprio ridículo, o que Mafalda Mafalda (é nome composto mesmo) e Zabobrim fazem no palco do Teatro Fábrica é expor o nosso ridículo, é nos fazer pensar rindo e rir pensando.

Rimos da pretensão de Mafalda, do caráter submisso de Zabobrim, de tentativas de suicídio, de remédios de tarja preta e - por que não? - da morte de Antônio Carlos Magalhães. Aliás, a brilhante e politicamente incorreta sacada de incluir ACM em uma lista de pessoas velhinhas ou falecidas (exatamente no dia da morte do senador - sexta-feira, 20 de julho), demonstra com perfeição o que mais me admira na palhaçaria: a coragem para rir do que algum dia alguém disse que não era risível.

No final das contas, o pobre do Shakespeare aparece muito pouco, perdendo espaço para a caracterização radicalizada do palhaço branco (chato e mandão) realizada pela atriz Andréa Macera e, sobretudo, para o intenso trabalho corporal que o ator Esio Magalhães desenvolve para compor um palhaço augusto (boboca e brincalhão) que procura demonstrar ao público, com direito a cueca de oncinha, as técnicas de interpretação que aprendeu com Mafalda. Esio comprova sua preparação corporal também em Freguesia da Fênix, espetáculo em cartaz no mesmo espaço, em que o ator interpreta três personagens.

E já que a idéia é brincar, vale apostar em muitas interações com o público, na magia da sanfona e até mesmo numa ingênua brincadeira com a luz, que mostra que a iluminadora Alice Possani está esperta e integrada no processo.

Segundo o rilise da peça, Sue Morrison, mestra de Andréa e Esio no curso “O Clown através da máscara”, onde os dois se conheceram, se baseia na idéia de tribos indígenas norte-americanas de que “o homem deve ser ver em várias direções para se encontrar com o ridículo da beleza humana e com a beleza desse ridículo”. Contraditórios e complementares, Mafalda e Zabobrim são um encontro de extremos que nos faz ver o quanto pode ser belo ser ridículo. No final do espetáculo, os atores apresentam seus narizes, para os quais batemos palmas animadamente, porque naquelas bolotas vermelhas estão a sensibilidade e a coragem de uma arte.

4 piruetas com cueca de oncinha

Publicado em 23, July, 2007