Crítica | A Poltrona Escura por Fabrício Muriana, Juliene Codognotto e Maurício Alcântara

Três autores à procura de uma crítica

Fotos: Lenise Pinheiro

Não que eu tenha muita experiência neste assunto, mas ficar velho não é das coisas mais fáceis dessa vida. Some-se a isso o vazio de perder a pessoa que te acompanhou a vida inteira, a humilhação de passar a ser tratado como se fosse criança pelos seus próprios filhos e encontramos o primeiro personagem de A Poltrona Escura. Não bastasse isso tudo, o velhote em questão é transferido para o quartinho de trás da casa “para ficar mais à vontade e ter mais privacidade”. Em um dos raros momentos de prazer, não com pouca dificuldade, ele sai pra andar pelo parque, pensando que entre as crianças poderá sentir-se renovado.

Esta parte, aliás, na minha opinião de quase-adulta encantada com os idosos, é a mais fascinante do pequeno conto. A intensidade com que esse senhor, depois da morte da esposa, se empolga para tirar as meias e meter com toda a inocência o pé nas folhas secas é admirável. Os movimentos coreografados de Cacá Carvalho - um gordinho com um puta trabalho corporal - e a escolha dos chinelos de quarto como símbolo de uma velhice de pés doloridos dá ainda mais significados pra esse enfiar de pés descalços. Tudo lírico, quase utópico… até que uma cruel - e também inocente - garotinha interfere:

- Velho porco.

Neste momento, enquanto lê essa crítica, você vai até o espelho mais próximo. Se o seu computador não pode ir até lá, imprima a resenha, ou traga o espelho pra onde você está, ou ainda ligue sua webcam de forma que seja possível ver a si próprio. Pense nessa pessoa que você está vendo no espelho. Pense na pessoa, não em você. A idéia é meio transcendental mesmo. É como sair do próprio corpo, num lapso, e não ter medo de se observar. O que dessa imagem é você e o que é “o que esperam de você”? Pense em quantos momentos num dia, em quantos segundos você realmente se sente VOCÊ. Em que tipo de situação se dá esse encontro com o seu eu mais íntimo - o eu que ninguém conhece. Pense nas situações patéticas por que você passa, mas só você sabe ou só você vê o quão patéticas elas são. Pense naquilo que você gosta de sentir sem contar a ninguém, exatamente por ser um segredo só seu. Pense bem, posso prever no que você está pensando? De fato é impossível. Mas no palco vi um senhor, magistrado, advogado, professor, pai de família que se descobre. Ele não rompe com a própria vida por isso, mas estabelece uma diferença clara entre os momentos em que pode ser ele próprio e todos os outros momentos do dia. Essa diferença está em assumir pra si mesmo a patética condição humana. Liberar os desejos mais idiotas, como forma de se vingar do cotidiano, e depois, satisfeito, voltar pro mesmo cotidiano. Esse é Cacá Carvalho no palco, com uma poltrona preta, encenando Pirandello.

Antes de prosseguir com essa crítica, é necessária uma pequena rubrica. Toda vez que você, leitor, ler aqui a expressão “fwooooo”, por favor compreenda (ou finja) que é a onomatopéia de um soprão. Não aquele sopro fraquinho de criança apagando vela de aniversário: é um soprão sem moderação ou piedade, cheio de perdigotos voadores e capaz de matar uma pessoa. Nunca viu um soprão que mata? Continue lendo, então. Rubrica feita, vamos ao conto.

Imagine que você está conversando com um amigo, como costumam fazer aquelas pessoas que têm amigos. Uma hora a conversa acaba e você volta pra casa, e este é o caso do personagem que Cacá Carvalho interpreta na terceira parte da peça. Mas então, bate à sua porta um outro amigo, em comum, dizendo que aquele primeiro amigo havia morrido de um mal súbito. Horrorizado, o homem, meio sem o que fazer ou dizer, exclama: “O que é a vida, não é mesmo? Basta um sopro pra que ela se vá…”. Enquanto fala isso, junta o polegar e o indicador da mão direita, aponta-o ao amigo que trouxe-lhe tão funesta notícia e… fwoooooooo.

Não tarda um terceiro conhecido chegar para dar notícia ainda mais triste: o segundo amigo também partiu desta para aquela que o dito popular diz ser a melhor. Mecanicamente, leva os dois dedos à boca, exclama a mesma expressão e fwoooooooo, para a infelicidade do segundo informante. O homem fica transtornado com a descoberta que acaba de fazer empiricamente, ainda sem acreditar: seu sopro mata. Então ele sai pelas ruas (entenda-se aqui, a platéia) fazendo fwooooo na cara de todo mundo, pra ter certeza de que realmente possui tão fantástico (e mórbido) dom. Fwooooo, fwooooo, fwooooo, fwooooo, fwooooo, fwooooo, fwooooo. Cacá não poupa nem mesmo uma velhinha que, segundo ele, já viveu demais e vai ter uma feliz passagem. E o resultado vem na manhã seguinte, quando ele ouve a notícia de uma epidemia desconhecida assolando a cidade.

Vemos em cena um ator multiplicado em muitas vozes, personagens, com um vasto repertório de ações e reações absurdamente exploradas, controladas, minuciosas. Pequenos detalhes, como um cruzar de pernas ou sustos coreografados ao ver-se prestes a fazer um fwoooooooo involuntário, mostram um talento gigantesco, desconhecido por boa parte da população brasileira, que infelizmente o associa a um único personagem. Uma lástima. Tal personagem - aquele que “não morreu” (e não é o Elvis) e “não sabe de nada” (e não é o Lula) - chegou até mesmo a ser usado em duas novelas diferentes da mesma TV Globo.

Junto aos outros dois contos, essa sofisticada fábula que fecha o espetáculo faz valer a viagem pra Campinas, onde vimos uma apresentação única, não só por não haver outras programadas. No conto, além da inusitada condição do protagonista, são muitos os questionamentos filosóficos sobre a vida e a morte. Afinal, o que é a vida, não é mesmo? Basta um sopro…

260km de estrada, mas a peça merecia.

Publicado em 29, October, 2007