Crítica | A Rua é um Rio por Maurício Alcântara

A rua é um teatro. Ou deveria ser.

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Fotos: Maurício Alcântara

Calçadão comercial no centro de Rio Preto - igualzinho qualquer calçadão popular de qualquer cidade - no meio de uma tarde dum dia útil qualquer, e um bando de gente se aglomera em torno dum tapete que delimita o espaço onde será apresentado A Rua é um Rio, da companhia Tablado de Arruar. A peça, como o próprio título insinua, refere-se aos fluxos de pessoas nas ruas de uma cidade, mais especificamente sob o aspecto da posse do espaço urbano - a montagem foi inspirada na excitação imobiliária (vulgo putaria) que vem acontecendo em São Paulo nos últimos anos. A proposta é clara: apresentar duas trajetórias de personagens que nunca se cruzam, mas que estão intimamente relacionadas através da ocupação do espaço. Se estivéssemos falando de telenovelas, é como se houvesse o núcleo pobre que está sendo despejado, e o núcleo rico que quer construir um empreendimento. Como estamos falando de teatro, bem… é a mesma coisa.

O espetáculo não traz exatamente uma linha narrativa, apenas apresenta, de forma superficial, uma classe média mesquinha e malévola (tipo aquela personagem tradicional de Beatriz Segall - que tava no festival, mas não pra essa peça), uma classe média com “consciência social” e que acha que salva o mundo por fazer boas ações (desde que estas não impactem diretamente em suas posses), pobres que pouco podem fazer para transformar sua realidade e pobres que se deixam comprar pelas poucas migalhas que lhes são oferecidas. Todas estas realidades, apresentadas de forma estereotipada como nas novelas da Globo, giram em torno de um grande empreendimento imobiliário que passa por cima de tudo para valorizar uma enorme construção vazia de qualquer função social e/ou urbanística. E é com essa construção da “Empty Tower” que os fluxos narrativos construídos ao longo do espetáculo se dissipam, da mesma forma como se formaram, sem maiores amarras. E é dessa mesma maneira que a platéia se dissipa para seus trabalhos, casas ou vans escolares.

Apesar de acontecer na rua, pouco diálogo se estabelece com o público ao redor, limitando-se apenas às entradas e saídas de personagens, cenários e… carros gigantes que forçam o público a sair o tempo todo de seus lugares para atender aos interesses das pessoas que passam sem pedir licença (sacou, sacou?). Mas boa parte dessas interações também poderiam acontecer num teatro de arena ou qualquer outro espaço fechado - exceto pelo carro enorme que, bem… acho que só caberia no palcão do Cultura Artística. Claro que não teria a mesma graça do que apresentar para um público que muitas vezes nem esperava encontrar uma peça teatral em seu caminho, mas, por outro lado, talvez ajudasse os atores a ter mais controle sobre a voz (muita gente comentou ter desistido da peça porque simplesmente não ouvia o que era dito).

É pelo fato do espetáculo acontecer na rua e de falar de fluxos de pessoas numa cidade (ainda que de forma simplória), que a peça ganha novos sentidos e significados no contexto do festival de Rio Preto: o teatro de rua é, possivelmente, a única (e repentina) oportunidade de muitos riopretenses terem algum contato com um dos mais importantes eventos de artes cênicas do país e que acontece ali, em sua cidade. É quase como se a narrativa do Tablado de Arruar sobre ricos e pobres, burgueses e proletários, beneficiados e desafortunados, se refletisse na oferta de espetáculos: tão poucos espetáculos abertos, para todos (incluindo os desavisados), e tantos espetáculos em espaços fechados, com acesso restrito apenas a convidados e àqueles que tiveram tempo/grana/interesse para garantir suas entradas antes que esgotassem. E isso não quer dizer que fora dos festivais a cena teatral não seja muito diferente…

2 rios que não se cruzam, apesar da peça acontecer numa esquina

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Publicado em 21, July, 2008