Crítica | Algumas Vozes por Maurício Alcântara

Esquizocrítica

Foto: Maria Tuca Fanchin/Divulgação.

Algumas Vozes é uma peça do dramaturgo londrino Joe Penhall sobre um garoto esquizofrênico que sai de uma instituição psiquiátrica e tenta se readaptar à sociedade. Vale lembrar que, segundo a voz do Dicionário Houaiss, esquizofrenia é um “termo geral que designa um conjunto de psicoses endógenas cujos sintomas fundamentais apontam a existência de uma dissociação da ação e do pensamento, expressa em uma sintomatologia variada, como delírios persecutórios, alucinações, esp. auditivas, labilidade afetiva etc.”. Segundo as vozes populares, esquizofrênicas são as pessoas que ouvem vozes, aquelas vozes vindas sabe-se lá de onde.

Assistir a essa montagem despertou várias vozes dentro de mim, algumas minhas, outras dos outros. Logo de cara vieram as vozes do Gilles Deleuze e do Félix Guattari (vozes imaginárias, uma vez que nunca conversei com eles e tampouco falo francês), afirmando que todos somos confluências de vozes e que, além disso, uma das conseqüências do capitalismo é fazer com que todas as pessoas tornem-se esquizofrênicas.

Ao afastar as vozes dos malucões franceses, as minhas vozes permanecem. A primeira delas é a do publicitário que vê com bons olhos o fato de uma escola de inglês abrir espaço para a difusão da dramaturgia britânica contemporânea (afinal não só de Shakespeare vive a dramaturgia britânica, não?). Atropelando a voz do publicitário, vem minha voz que odeia a publicidade e critica o fato de apenas iniciativas como essa, com segundas intenções, promoverem algum tipo de procura por outros autores. Onde estão as editoras? Onde estão os grupos pesquisando os desconhecidos? Quais são as aberturas que hoje há para novos dramaturgos? Não querendo entrar nessa briguinha, deixo essas minhas vozes se estapeando num canto e tento prestar atenção na peça.

A produção é centrada, racional, limpa e comportadíssima, trazendo uma abordagem bastante textocêntrica e muito pouco polifônica perto do que a temática poderia sugerir, mas minha voz de crítico chato se distrai com esses aspectos técnicos enquanto minha voz de artista que ensaia justamente num hospital psiquiátrico tenta encontrar em Ray (o protagonista) os traços que o classificam patologicamente como esquizofrênico. Acontece que essa questão se dissipa rapidamente quando me lembro daquela questão maior: quem define quem é esquizofrênico mesmo? Que garantia temos de que as pessoas que estão do lado de fora das instituições não sejam mais loucas do que as que estão dentro?

Desistindo de resolver esse impasse (e lembrando mais uma vez das vozes do Deleuze e do Guattari), passo a observar os outros personagens: o irmão de Ray que se superprotege atrás de sua vida de classe média, quase que assumindo uma voz alheia, pré-fabricada (atacada pelo irmão “louco” que não legitima essa voz); Laura, a garota cujas “vozes” alternam entre a escolha por Ray ou pelo ex-namorado violento (e de quem está grávida); o tal ex-namorado obcecado, e o companheiro de manicômio de Ray que, sem ter um laço familiar qualquer que tente readaptá-lo à sociedade, morre e desaparece, como se jamais tivesse existido.

Saio do teatro pensando nem tanto na apresentação que acabara de ver, mas na quantidade de vozes que batiam o maior papo em minha cabeça, misturadas às vozes de todos estes personagens, sem que uma necessariamente esperasse a outra falar pra poder dizer o que acha. E essas vozes todas debatiam tentando identificar ou imaginar formas de não reduzir toda essa polifonia à linearidade de um texto cartesiano - da mesma forma como acontecia naquele espetáculo que acabara de ver, e da mesma forma como acabei de escrever esta crítica.

Muitas vozes que, se cantassem juntas, talvez dessem um lindo coral

Publicado em 26, August, 2008