Crítica | Alguns Leões Falam por Leca Perrechil e Maurício Alcântara
Se meu leão falasse

Foto: Mário Ângelo.
Um teatro longe, daqueles de que a gente facilmente desiste só de pensar em pegar um taxi ou descobrir como chegar, mantinha quase que em segredo um espaço aconchegante que recebia pouquíssimas pessoas (quase todos da imprensa) para a derradeira apresentação de Alguns Leões Falam, ao meio-dia de um sábado. Sim, sacrifícios precisam ser feitos quando um espetáculo é elogiado quase que unanimemente no Fringe, a mostra não-tão-paralela-assim do Festival de Curitiba.
O espetáculo em questão é da Cia. Clara de Teatro, de Belo Horizonte, pela qual - descobrimos depois - a Grace, da atual Cia. Espanca!, Passô (o trocadilho dessa vez não é nosso, é de autoria do Sérgio Sálvia Coelho - mas achamos tão infame que não poderia ficar de fora dessa revista).
Simplicidade é o que mais vemos no palco. Cenografia reduzida a uma passarela branca que divide a platéia, uma cortina branca em uma das extremidades, três jovens atores vestindo roupas quase neutras e apoiados apenas em seus textos e corpos. Não é necessário mais do que isso para comover as poucas pessoas presentes.
Na história, a amizade de Clara, André e Rocha - que segue desde a infância até a vida adulta, passando pelo crescimento juntos, separações, brigas, relacionamentos, solidão e amor. Clichê? Batido? Pode até ser, mas a sensibilidade e a ingenuidade (no sentido positivo da palavra) com que tudo é contado traz à história a mesma aura que percebíamos, por exemplo, em Aldeotas, de Gero Camilo - talvez por ambas partirem de uma temática parecida.
Há algumas fragilidades na dramaturgia que fazem com que os personagens percam um pouco de sua força à medida em que crescem (de tamanho), atrapalham a compreensão dos conflitos que surgem entre os amigos já adultos, e trazem um didatismo exagerado na solução encontrada para indicar a passagem cronológica: o tempo todo os personagens perguntam suas idades, o que vira quase uma legenda para a cena. Mas quando tudo isso se torna evidente, já é tarde demais, pois a platéia já está encantada (e segurando as lágrimas) pelas interpretações doces (tipo doce de leite) e nada estereotipadas ou idiotizadas das três crianças e adolescentes.
Analisando o Fringe como uma vitrine de talentos e trabalhos de todo o país, Alguns Leões Falam renova as energias para continuar vasculhando atrás de pequenas pérolas que mostrem o que é produzido por aí, e que essa condição de vitrine é, em sua essência, uma oportunidade para que os grupos possam mostrar o que têm de melhor. Só é uma pena a localização tão distante, o que certamente interferiu para que a platéia estivesse tão vazia. Deve ser bem mais bonito ver tudo aquilo numa casa lotada. Mas quem sabe isso não aconteça em breve, em temporadas por aí?
Um monte de gente na platéia enxugando os olhos. Vai ver que era cisco.
Publicado em 25, March, 2008

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