Crítica | Andersen’s Dream por Fabrício Muriana
Quando alguém te conta um sonho
Fotos: http://www.odinteatret.dk/

Eu tenho um amigo que adora contar histórias de sonho. Um dia ele me contou que o sonho dele começou no metrô. Ele fazia caminhos diferentes, todos muito tortuosos. Não tinha quase ninguém dentro do vagão. Meu amigo disse que em seu sonho ele era o único que sabia que alguma coisa tinha sido mudada. Ele quis sair do metrô pra poder observar do lado de fora. Então ele subiu no topo do trem, sentou-se e aguardou a chegada do destino.
Quando chegou, deu-se conta de que estava em outra cidade. Não reconhecia mais nada daquilo a que estava habituado. As ruas tomavam outros caminhos e os prédios nunca haviam estado ali. As pessoas eram diferentes. Mas, estranhamente, ele sabia que iria ao mesmo lugar sem saber o que era esse lugar.
Então ele descobriu sua casa nova. Era um apartamento, bem no meio de grandes avenidas. Mais parecia um quarto de hotel, segundo ele, pois só cabia uma bicama - que o fazia indagar-se quem mais morava ali - com uma TV em frente e um banheiro logo na entrada.
Ele logo se lembrou que fazia pouco tempo que se mudara praquele lugar. Em seu sonho ele tinha perdido a mãe (que ainda vive) e morava com sua irmã. Seu pai (que já faleceu) no sonho trabalhava o dia inteiro para o sustento da família. Tiveram, ele e a irmã, de aprender tudo.
Foi mais ou menos isso que o Eugenio Barba e o Odin Teatret fizeram com os sonhos de Hans Christian Andersen: Uma grande contação. Só que eles foram mais ousados que meu amigo e fizeram em diversas línguas, de forma radicalizada - ou seja, em momento algum esquecemos que é um sonho - durante cerca de uma hora e meia na peça Andersen’s Dream.
Ao entrar, sentamos em seis fileiras de assentos, três de cada lado, dispostas frente à frente (tipassim, um Théatre du Soleil Júnior meio desfigurado). No teto, um espelho ovalado, como a forma do espaço de apresentação. No chão, um tapete composto por bolinhas de isopor imitando neve. Embaixo do tapete, outro espelho.
Ao sair, um senhor que dormiu durante uma boa parte da peça comenta com sua possível (?) filha (?) “Nem aquele espetáculo de dança que você me trouxe era tão ruim quanto essa peça”. Na fileira de cima, podemos ouvir parte de um diálogo: “ele levanta questões muito interessantes”. Na minha cabeça, não consigo dissociar o sonho que foi apresentado das estripulias da neta de Chaplin - procurando um conteúdo praquela forma - nem consigo achar um conceito geral da encenação. Fica a pergunta: a que veio essa peça do Barba? Não é por soberba nem pra julgar nada, é só um apelo que faço aos que dialogaram com a proposta. Os comentários, como sempre, estão aí pra isso.

2 atores para cada língua em que a peça é falada
PS: O sonho de meu amigo foi retirado daqui.
Publicado em 8, July, 2008

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