Crítica | Anticlassico - Uma desconferência e o enigma vazio por Astier Basílio
Meu coração é vermelho ( hey!) (hey!)
Foto: Márcio Cabral
A estrada que leva à aprazível Areia, no brejo paraibano, tem mais de 150 curvas. A cidade fica em cima de uma serra, é tombada pelo Patrimônio Histórico. Estive lá no encerramento do Festival de Artes de Areia. No passado teve gente como Paulo Pontes, João Ubaldo, Henfil (o irmão do Betinho) e desempenhou um papel importante de resistência cultural à ditadura – assim contam os mais velhos.
Fui pra lá (tomei um dramin antes) no encerramento pra ver Anticlássico - Uma desconferência e o enigma vazio peça dirigida, escrita e interpretada por Alessandra Colassanti que dá vida à Bailarina de Vermelho. Ela divide cena com personagem auxiliar chamado de Hamlet. Não vou cair na armadilha de explicar os sentidos dos nomes e das citações no texto. Acho que não tenho muito o que acrescentar às críticas já feitas aqui pelo Fabrício e pelo João Cícero. Quando vier a tentação de chover no molhado, devo lembrar que, após assistir àquela “desconferência”, tenho de admitir que “tudo já foi dito“.
A peça deveria começar às 20h15, demorou uns 20 minutos. A razão? Estava havendo missa e do auditório do colégio Santa Rita, onde a peça seria apresentada, era audível e em bom som, a voz do padre. No final da missa, inclusive, o pároco recomendou aos fiéis que fossem ao teatro. E assim aconteceu.
Depois da recomendação do Padre, um monte de senhorinhas saía da Igreja – pertinho do Colégio – e se juntava às moças descoladas, hippies de saia colorida além dos… bom, eu não ia usar essa expressão, não é minha… ; além dos… ; a expressão é de um amigo meu, um fotógrafo que estava lá; além dos… é bem preconceituosa a expressão dele… ; além dos velhinhos, senhorinhas e hippies, bom, estavam os… (eu não queria dizer)… os gays de festival.
Do palco pra primeira fila, onde eu fiquei, havia um distanciamento de quase cinco metros. O lugar não era um teatro, mas um auditório de escola. Sem querer fazer qualquer juízo de valor sobre a platéia, a quase apatia diante das melhores piadas da Bailarina, me fez pensar até que ponto as referências irônicas ao discurso acadêmico surtem efeito para quem não é tão familiarizado assim com os truques e tiques regrados por normas da ABNT, citações, perdas de referência, relativismos canônicos, morte da história e outros badulaques.
O Fabrício usou uma imagem legal. Do espetáculo como “coisa feita à mão, como bolinhos de chuva que a vovó não deixa queimar. Mas queimaram um pouquinho, só nas pontas, em escorregadelas para piadas fáceis”. Em Areia, Alessandra Colassanti teve de alterar a receita, aumentar o fogo, pesando a mão em lances cômicos. Mesmo tostando um pouco o texto, ops, os bolinhos, o efeito gerou mais resposta da platéia, deu pra ver pelo riso.
No meio da apresentação, rolou um lance becketiano: dois técnicos de som quase batendo boca enquanto rolava a peça devido um problema no microfone. Detalhe: a bronca técnica não atrapalhou nem quem estava no palco, nem quem estava na platéia.
Terminou Anticlássico e uma senhorinha de Areia foi lá buscar, na boca da cena, a cafeteira dela, que estava como elemento de cena. Achei aquilo bonito.
Durante a peça ganhei 2 copos: um com água Perrier, outro com Campari; além de uma caixa de bis.
Publicado em 11, November, 2008


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