Crítica | Aqueles Dois por Fabrício Muriana

Aquela peça

Fotos: Diego Pisante / Clix

Botar uma separação entre o dia em que se assiste uma peça e o momento em que se escreve sobre ela traz a certeza de que não ficaremos só nas primeiras impressões, mas faz com que nos tornemos ainda mais reféns da memória, cada vez mais escassa tanto individualmente como coletivamente nos nossos dias. A memória é nossa ilha de edição mental, e a minha sempre foi meio preguiçosa. No entanto, quando uma obra teatral se vale da adaptação de um conto, é muito relevante para a elaboração de sua crítica - tenha ela a forma que tiver - o contato com a obra original, por isso alguns dias eram necessários. Foi o que fiz, com algum atraso, depois de assistir Aqueles Dois, destaque da Mostra de Teatro Contemporâneo do Festival de Curitiba.

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O Cia. Luna Lunera, de Minas Gerais, partiu do conto homônimo de Caio Fernando Abreu, publicado em 1982, como parte do livro Morangos Mofados. Usaram também cartas enviadas por Caio Fernando Abreu, Cazuza e alguns outros (não sei especificar todos) para construírem um espetáculo de direção coletiva. A forma escolhida para coletivizar a direção foi a do revezamento entre os atores, assistindo e trazendo propostas para os ensaios. Além disso, eles abriram o processo para a opinião do público, o que expande ainda mais a idéia de criação coletiva e relativiza também a idéia de autoria, presente no conto original.

Era quase previsível que houvesse excessos na montagem final, como acontece em muitas outras que são feitas a muitas mãos. A diferença aqui é que houve um respeito quase exagerado ao texto original, algo que normalmente deporia contra a peça, mas que dessa vez é complementado das formas mais diversas por cenas que dão novas e mais amplas leituras ao que encontramos no conto. Assim como na adaptação de Comunidad, aqui vemos a obra inicial expandida e relida, quase como se sua autoria também fosse coletivizada por meio da montagem que se frui no palco.

Ao vermos o trabalho físico e de construção dos personagens, além da montagem instantânea de cenários, concluímos: “esses caras viram muito a Cia. dos Atores“, as peças do Grupo Espanca! (também lá da terra deles) e muitos outros dos tais “contemporâneos”, mas souberam levar só o que lhes interessava. Dois personagens - Raul e Saul - são interpretados por quatro a[u]tores, o que amplia as vozes diversas contidas nas suas construções. Essa opção quebra a obviedade do conto, que desde o início deixa claro quem são os protagonistas da história. Por vezes ficamos perdidos tentando entender quem são os quatro que se estão apresentando. É quase como se não tivessem uma identidade por se terem rendido ao cotidiano despersonalizante de uma repartição.

A trilha sonora tem destaque especial; pelo que já estava citado no conto, sendo executada ao vivo com descompromisso e espontaneidade; para vermos como boa parte das escolhas de Caio Fernando Abreu se tornaram cliché com o passar do tempo, e, enfim, para concluirmos que a opção pela manutenção do cliché não diminui a quantidade de leituras da obra. É impossível não voltar às coletâneas de Carlos Gardel e Frank Rodrígues - na interpretação de Los Panchos, é a que mais adoro - por mais críticos que sejamos à indústria cultural.

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Uma obra para ser vista, ouvida, encenada e relida, Aqueles Dois parece despretensiosa no início, complexifica-se no meio e te pega por vários dias ao final. Demonstração de que uma boa história pode suscitar simbolismos e contradições mais amplas do que o que está contido nela, mas também pode ser simplesmente uma boa história.

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5 são aqueles que assinam adaptação e direção

Publicado em 1, April, 2008