Crítica | Ariano por Juliene Codognotto
Qual é a saída mesmo?
Foto: Guga Melgar

Em Ariano, tudo é muito. Os atores cantam muito, tocam muito, acertam muito, erram muito. Com muita cor, muito bambu no cenário e muitos atores (16 ou 17, se não me engano), Gustavo Paso (diretor e autor) e Astier Basílio (autor) assumiram o desafio de homenagear o escritor Ariano Suassuna (detentor, por uso capião, da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras) no ano em que o rapaz completa 80 anos, na sua busca por alcançar o Paulo Autran. Para isso, colocam como personagem principal – adivinhem! - ele próprio, só que com uns trinta anos, num passeio por suas obras, dialogando ainda com outros textos, como o apropriado Coração de Palhaço.
Só desta homenagem não-póstuma, talvez já seja possível tirar uma explicação para o exagero de que começo falando neste texto. Ariano, em meio à sua obra, é muito. Muito e ponto. Um muito que nem de adjetivo precisa.
Começando do começo: muito tempo esperando pra peça começar… tudo bem que é pré-estréia, mas quinze minutos já tava bom pra eu tomar um suco de abacaxi com hortelã e café, não precisa de uma hora. Quem me lê reclamando tanto nem imagina que esta foi a primeira pré-estréia da Bacante. Finalmente algum louco resolveu convidar a gente para este tipo de evento, desses em que você pode ver a peça antes de todo mundo e ainda ganha comida e bebida como recompensa.
Entramos. Um cenário rico, bege, com clima de sertão, clima de Suassuna mesmo. Muito gelo seco dando efeitinho por baixo das pedras cenográficas. E então, quando os sons da coxia, a fumacinha e aquele monte de bambu estão nos embalando e nos apresentando aquele ambiente todo especial, eis que o Centro Cultural Banco do Brasil resolve que tem que apresentar a peça, contar que tem orgulho em fazê-lo, pedir pra desligar o celular etc. Que merda. Me deu raiva. Até ri de raiva. Ao acender das luzes, não estava mais lá o cenário deserto do sertão. No lugar dele: atores. Muitos deles, a maioria segurando bandeiras semelhantes às das naus portuguesas (lembre aqui da sua aula de história do primário), todos cantando. Um coro muito bem entrosado e muito suave. No alto, no canto esquerdo, uma balança que já havia chamado minha atenção agora está ocupada por um Ariano, sentado nela. E, em meio a alguns exageros, esqueceram de exagerar no uso dela. Ariano não balança na balança. Nem faz nada demais ali. Nem ele, nem ninguém da peça. E, então, o que poderia ser uma ferramenta cheia de significados, se limita a ser uma cenografia bonita.
Logo, conhecemos diversos personagens, universos e lendas criados e recriados por Suassuna em suas muitas obras, filtrados delas com cuidado e carinho, formando uma unidade poética. E poesia não falta. A linguagem é toda linda, do início ao fim. Faltou mesmo foi criatividade nas piadas que o grupo criou para permear as histórias, muitas piadas, pouca graça, pouca originalidade. E o clichê corre solto, em personagens que parecem ter vindo direto d’A Praça É Nossa ou algo que o valha.
No entanto, um personagem vem, não da praça, mas direto da obra O Santo e a Porca pra trazer mais criatividade e arrancar de mim as gargalhadas que ainda não haviam saído. Trata-se de Caroba, que vai se tornar a fiel escudeira do Rei Ariano na busca pelo Reino de Acauã. A simples menina que os tios consideram doidinha, é interpretada docemente e oferece uma sabedoria divertida: “Caroba sabe tudo!”, diz. E sabe mesmo. Ou quase tudo. Sabe, inclusive, nos emocionar quando recebe uma condecoração pelos serviços prestados.
Há que se dizer que, mais do que a intérprete de Caroba, merece destaque o trabalho de todos como um grupo. Cada vez mais, tenho observado atores preparados pra tudo, que sabem tocar, cantar, virar cambalhota e até atuar. É o caso. O programa não me deixa mentir: embaixo dos nomes dos atores, está o nome de seus personagens e, em seguida, os instrumentos que tocam na peça. Isso mesmo, instrumentos, no plural. Não me venha com essa de saber tocar Legião Urbana no violão, o lance é sério mesmo. Pessoal de talento, um talento reunido com generosidade.
Muitas aventuras depois, após enfrentar obstáculos como uma atriz que parece a Solange Couto e um ator que parece o Nerso da Capitinga, entre outros, o personagem Ariano chega, então, ao fim de peça mais brega que eu já vi, com direito a pisca-pisca colorido de Natal, cavalo branco e canto de pai. Tudo bem que é sonho e que a morte do pai de Suassuna tem fortes reflexos em sua obra (o escritor tinha só três anos quando Seu João foi assassinado), mas ficou apelativo e boboca, de modo que considero possível encontrar um desfecho mais interessante, utilizando a mesma figura do pai de um jeito mais criativo e menos piegas. Mas, já prevendo os percalços porque eu passaria ao longo da peça, a própria obra não se cansa de me alertar do começo ao fim (afinal, a frase é repetida umas 500 vezes): a saída é a poesia! E é mesmo, porque se dependesse das piadas e da afinação do ator que interpreta o João Suassuna, não teria escapatória, não.
3 taças de espumante
PS: Já que a resenha toda fala de exageros, não posso deixar de zuar, com todo respeito, a subida dos autores ao palco. Fazer discurso, tudo bem, já é praxe, mas dar uma dançadinha desengonçada com os atores foi um exagero divertidíssimo!
PPS: A comida não tava exagerada, não! Tava na medida certa, viu!
PPPS: O programa da peça é um dos mais generosos que já vi. Trechos bonitos de obras, fotos bacanas e o texto de Gustavo Paso, que diz que não vai contar a peça, nem suas intenções. E não conta. Perfeito. Obrigada por me deixar tentar descobrir.
Publicado em 17, September, 2007

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