Crítica | As Três Graças por Juliene Codognotto

A graça sem-graça de um autoritarismo frágil

Fotos: Divulgação.

Ok. Não tem muita graça. Devo admitir que não deu pra rir em vários momentos em que a peça pedia, esperava, implorava por gargalhadas da platéia. Tá certo que eu tinha tomado chuva e não tava muito bem humorada, mas acho que mesmo que estivesse feliz da vida não teria rido da fábula da Grande Vulva.

Entretanto, depois de muito procurar graça (afinal, é comédia, né, gente?), consegui encontrar outra coisa que me interessou mais: graciosidade. Pode me chamar de piegas, dizer que dá tudo na mesma e que é só mera questão terminológica. Nem ligo.

A graciosidade que encontrei foi na abordagem de uma relação humana muito específica: a de pai e filha. Talvez porque eu seja uma filha. Aliás, certamente por isso…

(Aqui começa a crítica mauriciana* a que me propus no caso desta montagem)

Nesta noite, eu encontraria meu pai na Festa da Achiropita. Não, de sexta não tem a festa de rua, é só pra VIPS. Não, meu pai não é uma very important people da Achiropita, mas é amigo dos cara. Chegando lá, ele não atendeu o celular. Eu, com fome e sem entrada pra a noite das very importante people, me irritei e fui embora. Mais tarde, bravos, eu e meu pai nos falamos e ficamos de boa.

No dia seguinte, acordei cedo. Era sábado. Sério. Acordei cedo. E era sábado (isso não é redundância, é uma repetição fundamental para destacar meu esforço). Comprei pães e açúcar e fui até a Vila Mariana assistir o jogo de vôlei da seleção feminina com meu pai. Cheguei no final e ainda peguei as últimas jogadas que levaram ao ouro, enquanto meu pai instalava a cortina da sala da minha irmã e esperava pela minha ajuda prometida.

Vamos à emocionante instalação da cortina. Meu pai é bravo. E briguento. E essas características afloram quando ele se cansa ou quando ele bebe. A cada ano ele bebe menos, no entanto, a cada ano ele se cansa com mais facilidade, de modo que, no fim da instalação já começavam as caretas. Num dado momento, que sabíamos todos, não tardaria, ele foi grosseiro e mandão, quebrou a bucha do parafuso e etc. Na mesma noite, ligou pra pedir desculpas.

Durante todo esse dia me lembrei da peça e de todos os acontecimentos de infância que relacionavam meu pai, o autoritarismo e o machismo da sociedade. E meu pai nunca foi dos piores, pelo contrário. Conheço histórias de pais muito mais autoritários, mesquinhos e que não conseguiam superar tudo isso para serem amorosos, companheiros. Mas é isso mesmo que mais assusta no meu pai, que os abusos de autoridade são tão inseridos na cultura que a paternidade, por mais que ligada ao amor, continua sendo um espaço para exercer poder.

Bem, diferentemente do que fez na minha irmã, meu pai não instalou a cortina da minha casa. Ele nem conhece minha casa, na verdade. E, mesmo assim, continua querendo mandar em mim e saber mais do que eu sobre a vida, mesmo que essa vida seja a minha. E eu continuo gostando dele. É, você não tem nada a ver com meus problemas familiares, até porque eu posso ter acabado de inventar tudo isso.

Mas por que raios, então, você quer saber de cortinas e buchas e parafusos? É que toda essa reflexão só aconteceu porque, em As Três Graças (olha! Citei a peça!), apesar de todas as atuações presas a um realismo forçado, dos personagens que não conseguem refletir a aparente profundidade de pesquisa do grupo e, ainda, das piadas facílimas, os criadores escolheram um eixo central que me impressionou por não ter me tocado na hora, mas me feito pensar tanto depois.

A graça está não nas muitas falas didáticas e bobas – tentando se aproximar do público, saca? – mas, por exemplo, no olhar de uma personagem que, depois de ser despejada de sua casa, ainda sonha em encontrar o pai e quer se lembrar dos lindos passeios de bicicleta no mato, mesmo sem nunca tê-los feito. Esse ponto comum entre as personagens - que juntam em si muitas mulheres - reflete uma sociedade que desde o ambiente familiar é, ao mesmo tempo, machista e doce. Uma organização baseada em imposições e agressões que tentam perpetuar uma violência silenciosa, mas, para além de tudo isso, reflete uma esperança esquisita que nos move a querer mais o amor, conformistas ou generosos que somos.

1 eixo que pode tocar as espectadoras.

* Crítica mauriciana: é o tipo de crítica em que, como geralmente faz o crítico Maurício Alcântara, da Revista Bacante, maior expoente do gênero, você conta um pouco da sua vida – às vezes muito – para contextualizar o leitor e permitir que ele saiba de onde você parte para realizar a crítica. Maurício costuma citar, por exemplo, lembranças familiares relacionadas a sua avó que o aproximam do universo proposto pela montagem.

Publicado em 26, August, 2008