Crítica | Borboletas de Sol de Asas Magoadas por Leca Perrechil
Na Casa de Bety
Noite de quarta-feira pós-chuva. Chego ao espaço dos Satyros I em cima da hora pra ver a peça Borboletas de Sol de Asas Magoadas. Depois de pegar meu ingresso, começo a conversar com dois amigos que só estavam lá bebendo e comendo mini-pizza em forma de aperitivo. O espaço está semi-vazio, apenas um grupo de nove pessoas (sim, eu contei) aguardam para ver a peça e outros estão bebendo e curtindo a música ambiente. Um dos meus amigos me fala que já viu a peça, gostou, mas que a falta de público atrapalha um pouco, já que o espetáculo pede interação - fato que será constatado logo mais.
O clima continua o habitual, mesmo quando entra uma pessoa com saltão alto, peruca loira, micro vestido, maquiagem e gestos espalhafatosos, falando alto e conversando normalmente com o pessoal do teatro. Sim, isso poderia acontecer em qualquer dia normal na Praça Roosevelt, mas logo a figura convida o pessoal a entrar em sua casa, lá dentro da sala de teatro, e ficar à vontade. Trata-se da travesti Bety, interpretada pela atriz Evelyn Ligocki, que também assina o texto e compartilha a direção com Celina Alcântara (qualquer relação com Maurício Alcântara, é mera coincidência).
Para fazer o papel, Evelyn fez sua lição de casa acompanhando o dia-a-dia das travestis de Porto Alegre e também por meio da ONG Igualdade - Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul. E deu certo - a Bety de Evelyn é tão realista que parece mesmo uma travesti contando sobre sua vida, sobre as companheiras, manias, truques para parecer mais feminina etc. Voz mais grave, postura e gestos trazidos durante a pesquisa ajudam a criar Bety e o ponto forte do espetáculo: uma personagem complexa, que conta com despojamento sobre os prazeres de ser travesti e ao mesmo tempo a tristeza e solidão pelas violências sofridas e pelo preconceito.
A temática da peça não foca apenas nos sofrimentos e exclusão social dos travestis, mas também em um mundo alegre, em que os exageros (pra falar, se vestir, viver) são apreciados e bem vindos. Além da construção da personagem, a estrutura do monólogo se baseia ainda na interação que esta cria com a platéia.
Nesse ponto voltamos ao início - a peça precisa de público e perde quando o número de espectadores é reduzido. Dentro da casa de Bety, o público é convidado e confidente. Bety oferece salgadinho (sabe aquele Fofura, que não tem gosto, é barato, mas dá vontade de mastigar?), faz perguntas, pede para chamarem o nome dela. O público não está lá apenas pra assistir, faz parte da composição da peça. No final, a personagem já conquistou o público e já foi passível de pena, provocou risadas, além das reflexões sobre preconceito e estrutura social.
PS: Em dado momento do espetáculo, Bety realiza seu show de travesti, daqueles de dublagem que a gente vê em filmes ou em casa de boate mesmo. Mas Bety traz um show tão melancólico, depois de momentos tensos da encenação, que deixa sua apresentação musical bastante poética. Se Stanislavski visse, poderia até falar de fé cênica… se quisesse.
3 salgadinhos Fotura sabor churrasco jogados no chão
Publicado em 18, November, 2008

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