Crítica | Cabaret por Marco Albuquerque
Reescrevendo a história
Com um cartaz desses nem precisava de crítica.
Se existe algo que pode ser dito a respeito da cena teatral londrina (a de Londres, não a de Londrina) é que ela é imensa. Os teatros se aglomeram na região do West End com dezenas de opções. Todos os principais musicais estão em cartaz simultaneamente: Wicked, The Lion King, A Noviça Rebelde, o Fantasma da Ópera, Grease, Chicago, Hairspray, Les Misérables, Dirty Dancing, entre outros. Existe até espaço para versões musicais de E o Vento Levou e de Lord of the Rings (imagino Scarlett e Rhett dançando funk e Smeagol na Dança do Quadrado).
No ramo do “teatro não musical” a terra de Shakespeare também possui uma oferta gigante: dezenas e dezenas de produções que contam com textos consagrados (vários de Shakespeare), futuras revelações dramatúrgicas, atores britânicos que se dividem entre o teatro nas terras da Rainha e os filmes de Hollywood e assim por diante. A multiplicidade é tão grande que não é nada incomum descobrir que o grupo XIX de Teatro esteja em cartaz com Hysteria no St Bart´s Hospital.
Com tanta opção e com (infelizmente) pouco tempo, escolher o que assistir é uma tortura. Uma das escolhas que fiz foi Cabaret, em cartaz no Lyric Theatre, teatro que levanta outra questão sobre a cena londrina: se o presente impressiona pela multiplicidade, o passado também não fica atrás, uma vez que este teatro, datado de 1888, já recebeu espetáculos com atores como Sarah Bernhardt, Eleonora Duse, Vivien Leigh, Laurence Olivier, Judi Dench, Kenneth Branagh e John Malkovich.
Cabaret também é um musical com história: desde a estréia, em 1966, já foi remontado inúmeras vezes, gerou uma versão cinematográfica estrelada por Liza Minelli e já coleciona 8 Oscars, 7 Baftas e 13 Tonys. Mas a história não para por aí, pois está no forno a versão brasileira do musical, que (dizem) será estrelada por Claudia Raia, a Donatela de A Favorita. É a chance de Cabaret adicionar alguns Prêmios Bacante AOCA ao seu vasto currículo.
Nesta remontagem londrina, em cartaz desde o final de 2006, a fidelidade ao texto original é impressionante: a seqüência de cenas é integralmente mantida e o texto é dito como foi escrito. Por outro lado, é evidente a quebra de convenções e a abertura a novas interpretações. Por mais que o texto seja mantido na íntegra, a transposição cênica é inovadora e algumas das marcas registradas das versões anteriores de Cabaret são abandonadas. Um dos exemplos é Mein Herr, a música que possui a conhecida coreografia com as cadeiras. Esta canção é encenada de forma vigorosa e rapidamente conquista a platéia mas, surpresa!, nenhuma cadeira aparece no palco. Surgem, entretanto, fortes insinuações do uso de drogas durante a coreografia, o que permite novas interpretações à canção.
Novas possibilidades de leitura também são trazidas no número If You Could See Her: a gorila desta canção (que esteve presente em todas as versões anteriores do musical) é abandonada, sendo substituída por uma porquinha do tipo Miss Piggy dos Muppets, que, curiosamente, é interpretada por Alistair McGowan, o ator que interpreta Mestre de Cerimônias, num número à la Jekyll and Hyde. Alistair, por sua vez, é dono dos únicos momentos em que o texto original de Cabaret é deixado de lado: os momentos de improvisação, em que o Mestre de Cerimônias interage com a platéia. São interações precisas, ácidas e muito bem humoradas, que ganham o público com facilidade.
Cabaret é uma montanha russa de emoções, o que faz com que a platéia seja parte da atração: os olhos do público brilham de tesão (sim, essa é a palavra mais adequada) nas primeiras cenas do musical. Depois, ouvem-se gargalhadas histéricas que permeiam a peça até perto do seu final, entremeadas por ruidosas interjeições e suspiros nas cenas românticas de Herr Shultz e Fraulein Schneider. Na virada do primeiro para o segundo ato, quando a música Tomorrow Belongs to Me é cantada pela primeira vez, alguns dos atores participam nus de uma coreografia que remete diretamente a Leni Riefenstahl, a cineasta alemã cujos filmes ficaram marcados como instrumentos de propaganda da ideologia nazista e do enaltecimento do povo ariano. O contraste entre a beleza das imagens e o que a cena representa deixa a platéia emudecida e a prepara para o que está por vir.
No final do espetáculo a montanha russa faz seu estrago: com todos os acontecimentos do segundo ato, os espectadores ficam colados em suas cadeiras, sem acreditar no rumo que as coisas estão tomando e querendo de alguma forma reverter toda a situação. Na cadeira à minha frente uma jovem alemã chora compulsivamente. Saio do teatro com muito o que pensar sobre a natureza do ser humano.
42 anos depois, um clássico ganha novos significados
Publicado em 21, July, 2008


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