Crítica | Cada um com seus pobrema por Marco Albuquerque
Duas horas feitas pra esquecer os seus problemas
“Mano, nessa pessa é firmeza persseber comu a popraganda boca a boca é a auma dus negociu, tá ligadu?” Essa frase poderia ter sido facilmente proferida por Sanderson (que ganha a vida vendendo chicletes na porta de um teatro), uma das personagens interpretadas por Marcelo Médici na comédia Cada Um Com Seus Pobrema, em cartaz no Teatro do Shopping Frei Caneca. Ao boca a boca é possível acrescentar o YouTube, onde estão postados diversos vídeos da peça.
O fato é que a propaganda funciona e a peça está esgotada até a última apresentação, no dia 31 de agosto de 2008. Essa procura antecipada do público também aconteceu nas temporadas anteriores (qualquer semelhança com a venda relâmpago dos ingressos do Theatre du Soleil e do Peter Brook o que permite prever que a peça irá voltar para novas temporadas, mas não antes de Marcelo Médici se juntar a Cássio Scapin para protagonizar O Mistério de Irma Vap, sob direção de Marília Pêra.
Com temporadas lotadas, fica a questão: qual é a fórmula do sucesso? Me arrisco a dizer que a equação é simples: ator competente + texto inteligente + personagens absurdas = risadas garantidas + teatro lotado. Pode parecer simples mas, pelo número de vezes em que essa equação deu errado (e a lista é bem longa…), pode-se concluir que a tarefa não é tão fácil assim.
Em Cada um Com Seus Pobrema, Marcelo interpreta um ator que se ressente por ter estudado a vida inteira e não ter tido uma chance de estrelato (enquanto seu irmão que nunca estudou, mas que é bonitinho, começa a ganhar destaque no meio artístico). Esta personagem resolve então tentar a sorte numa inovadora versão de Hamlet, em que todo o texto será dito na língua do Pê (duvido que o pessoal da Cia dos Atores tenha tido uma idéia como essa… E o que será que a Bárbara Heliodora acharia? Será que, como resposta, ela escreveria uma crítica na língua do Pê?).
Infelizmente, essa idéia revolucionária não vai adiante, e a peça dentro da peça é abortada pelo ator interpretado por Médici (é muita metalinguagem, não é? Verifico os créditos de Cada um Com Seus Pobrema para ter certeza que o Enrique Diaz não está mesmo envolvido). O naufrágio da peça dentro da peça faz com que o ator (os dois, o ator-personagem e o ator-Marcelo-Médici) comece a dialogar com a platéia e surjam as deixas para que apareçam as 8 outras personagens. O resultado da combinação das caracterizações cênicas com a interpretação e o texto diverte a platéia durante as duas horas de espetáculo e faz com que algumas personagens como o Mico-Leão Dourado, a Smurfete e a Mãe Jatira já nasçam antológicas (e o YouTube fica encarregado de garantir a perpetuação destes números).
A participação da platéia também é importante em algumas cenas, em especial na cena da Mãe Jatira, uma vidente charlatã que, durante uma sessão, recebe o espírito da Branca da Neve, e passa a diagnosticar qualquer problema espiritual como encostos de personagens da Disney (e aí aparecem Pinocchio, a fada Sininho, entre outros). Durante a peça, Marcelo Médici tem, na ponta da língua, uma resposta rápida e bem-humorada pra qualquer comentário da platéia (seja o bairro em que a pessoa mora, o estado civil, ou o amor que uma senhora diz sentir pelo marido). O riso é garantido e, conseqüentemente, os ingressos esgotam-se, o teatro fica lotado e o dinheiro corre rápido. Quem ri por último é o ator, mas a risada é merecida.
P.S. Se você acha que as peças na língua da Pê ainda não tiveram o devido reconhecimento e estamos carentes da importante contribuição dramatúrgica destas montagens, mande seu e-mail para por_um_mundo_com_mais_peças_na_língua_do_pe@bacante.com.br e nos ajude nesta campanha para revitalizar esta linguagem teatral tão esquecida atualmente.
8 personagens + 1 ator + 19.397.638 espectadores
Publicado em 29, July, 2008


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