Crítica | Caramelo de Limón por Leca Perrechil
Breu total
Sim, o público come bala de limão durante o espetáculo…. E chocolate também! Não sei se eram guloseimas argentinas, não deu pra saber a marca só pelo paladar. Sugestão: oferecer alfajor da próxima vez, lá no país deles é bem barato.
O início, ou melhor, o que antecede o começo da peça argentina Caramelo de Limón é quase um ritual. Primeiro, as pessoas são convidadas a colocarem seus celulares em sacos pretos (tipo de lixo, só que pequeno), que são lacrados e devolvidos ao espectador. O público também recebe uma ficha com o número da cadeira e as instruções (tipo, a peça será totalmente no escuro. Qualquer objeto que produza luz deve ser colocado dentro do saquinho preto. Não fique de perna esticada pra não machucar o ator, se quiser sair, grite que quer sair e permaneça sentado, e por aí vai). Depois, as pessoas são chamadas de duas em duas pra entrarem na sala totalmente escura. Em fila, esses dois são guiados no breu por um ator (que bate um papo em portunhol selvagem com você, tipo: Tudo bien? Como estás?), que também não enxerga mas tem senso de direção, até os lugares indicados na ficha. Como esse procedimento demora um pouco, os primeiros a serem levados ficam um tempinho no escuro à toa. O rapaz que foi levado pra sala junto de mim, não se agüentou e disse: “Nossa, to adorando isso. É muito emocionante. Eu precisava comentar com alguém. (…) Não sei você, mas eu entrei meio curvado. Não conseguia ficar normal. Isso é muito diferente”.
Depois de andar sem saber para onde ia guiada por um cego, não ter idéia de como é o espaço cênico e a disposição das outras pessoas, e ter conversado durante algum tempo com um desconhecido que não sabia direito como era o rosto, o espetáculo começa. Como argentinos falam em espanhol (sério?… dã) e o escuro não permite projeção de legendas, nem em infra-vermelho, eu que faltei nas aulas de espanhol da tia Mercedes fico meio que boiando em relação à história. Sei que tem a ver com a ditadura militar na Argentina, na segunda metade dos anos 70, porque li no programa, mas para mim a peça atinge mais por causa de seu formato e experimentação do que pela história em si. É claro que a experiência deve ter sido mais concreta pros discípulos da tia Mercedes, que não ficaram longos momentos no escuro ouvindo espanhol sem entender, nos instantes de menor interação, e acompanharam a historinha da peça.
Contudo, o grande diferencial do espetáculo foi a construção de imagens na imaginação do espectador. Eu juro que vi alguém nadando de um extremo a outro do espaço cênico e derrubando outra pessoa na água. Depois, vi uma pesada carruagem, se deslocando perto de mim. Também teve uma tempestade meio vendaval e cenas de tortura. Mesmo não sabendo o espanhol, dava pra sentir o clima da cena pelos estímulos dados.
Um amigo chegou a me perguntar se eles judiavam muito da platéia, depois de ler a sinopse da peça. Ao contrário do que parece, a interação com o público em si não era muito grande. Além de terem distribuído as balas e o chocolate, e terem simulado um vendavalzinho com vento e água, teve um momento em que alguém passou colocando algo nas minhas costas. Depois da luz acesa, vi que era uma almofada, mas ainda não entendi o porquê, talvez tenha sido por causa da história. Do meu lado, ouvia também um barulhinho e um cheiro estranho de gás de spray. Achei que tinha a ver com o cheiro de limão (meio pinho sol) que inundava a sala, mas depois descobri que o garoto do lado deixou o desodorante spray pra fora, apertou sem querer, e só reparou que era ele quem tava fazendo aquele barulho depois de um tempão (sim, ele fez sujeirinha na mala). Assim, tinha ruídos que você não sabia se era outro espectador ou os atores quem faziam, e também tinha aquela sensação de não ver e não ser visto. Então não tinha aquela técnica do ator te olhar no olho, ou na linha do horizonte, ou todo mundo podia estar fazendo caretas horríveis, que tava tudo certo.
No final, quando as luzes se acendem, a surpresa é geral. (vou contar, porque a peça já foi embora, depois de poucas apresentações na Mostra SESC de Artes. Mas se você não quiser estragar a magia do teatro, não termine de ler a crítica) Um espaço totalmente vazio, sem nadinha de nada no chão. Nem piscina e nem bacia de água tinha lá. Bem menor do que parecia ser, e com duas fileiras de espectadores, o que limitava ainda mais o espaço da encenação. Nem imaginava que tinha uma fileira a minha frente. O público sai com a sensação não só de ter visto (já que nem viu, né?) uma peça, mas de ter experimentado uma experiência peculiar de se ouvir uma história.
Fernando Meirelles vai adorar. Já a Associação Americana de Cegos, não
Publicado em 14, October, 2008

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