Crítica | Como Nasce um Cabra da Peste por Leca Perrechil
Nordeste traz suas crenças pra São Paulo
Fotos: Altair Castro

Antes de escrever sobre Como Nasce um Cabra da Peste, do grupo Agitada Gang, da Paraíba, fechei a porta do meu armário pra não dar azar, desvirei meus sapatos pra ninguém da minha família morrer, tirei o pé de coelho da gaveta pra dar sorte (não para o coelho) e bati um papo virtual com o Astier - colaborador da Bacante e jornalista de João Pessoa - para ter informações mais regionais.
E não é que essa última simpatia funcionou mesmo!? Astier me interou que o autor (recém-falecido) do texto, Altimar Pimentel, era um velhinho legal muito ligado ao folclore e se baseou numa pesquisa etnográfica de Mário Souto Maior - sobre simpatias para gestantes, crendices populares nordestinas - para criar a peça.
Agora, com mais de 10 anos de peça, os paulistanos puderam conferir a montagem na Mostra Paulista de Dramaturgia Nordestina no CCSP e no CCBB, “digrátis”, para a alegria e satisfação daqueles que carregam sementes de romã embrulhadas em notas de 1 real na carteira, pra dar dinheiro. Assim, cruzei os dedos, bati na madeira e fui assistir sozinha [já que alguns amigos(as) tiveram resultado colocando Santo Antônio de ponta cabeça] a primeira peça da Mostra.
O espetáculo não fez ninguém atirar pedra na cruz e nem decepcionou quem esperava ver um registro mais regional - tanto na história embasada nas crendices populares quanto nas partituras físicas dos atores, tão bem desenvolvidas que não deixaram o espetáculo cair nem durante as piadas mais banais. Como disse o Astier no bate papo informal, “Nordeste não é isso, mas é isso também”. As aspas tiradas do contexto servem para dizer que esse retrato nordestino, que seria um pouco do que o resto do país espera do nordeste - seca, pobreza, diferentes crenças - existe, mas não está sozinho.
Também as peças de temáticas urbanas, que abordam outras questões, como Lesados (presente na Mostra) - sobre tédio e a mesmice cotidiana - têm produções realizadas na região. Mas fica a dúvida: será que a organização e curadoria da Mostra preferiram começá-la com uma dramaturgia que os paulistanos mais estão acostumados a ouvir sobre a região e, por isso, esperavam ver?
Nem precisei cruzar os dedos e apelar para ferraduras pro Astier (novamente ele) me contar uma de suas histórias, que tem tudo a ver com o estereótipo que o nordeste de vez em quando é vítima:
“Era uma peça que todo mundo falava. Aí entrou em cartaz e eu fui ver. Na minha frente, vinham duas senhoras, que eram turistas. Chegaram cedo, tiraram foto do teatro. Quando o Dadá (Venceslau), que tem uma cabeçona imensa, entra em cena, com uma baladeira caçando alguma coisa, a velhinha cutuca a outra e diz: “olha fulana, esse aí, agora, é um ator tipicamente nordestino”.
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Publicado em 11, November, 2008


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