Crítica | Cômoda – Como dividir uma cômoda de cinco gavetas entre duas pessoas numa separação por Emilliano Freitas

Um bumbum de fora nem in-cômoda!

Fotos: Divulgação

Ao telefone:
(…)
– Vai rolar uma peça na UFU hoje, vamos comigo?
– Festa?
– Peça!
– Ah, lá na cênicas?
– É, lá no bloco 3M.
– Como que chama?
– Cômoda.
– E tem gente pelada de novo?
(…)

cômoda 1

Ouvi três vezes a mesma pergunta, ao convidar três pessoas diferentes para ir ao teatro na Universidade Federal de Uberlândia nesse fim-de-semana. Quantos preconceitos com o teatro universitário! Tentei livrar minha mente do “não vi e já sei o que vai acontecer”, sem achar que toda peça ali tem bumbuns de fora, voz empostada, black-outs (ao som de uma voz sombria em off), corpos retorcendo e mais um monte de lugares-comuns acadêmicos.

E para o meu espanto, no solo Cômoda – Como dividir uma cômoda de cinco gavetas em uma separação (concorrente ao prêmio Bacante de maior nome de peça em 2008), tinha tudo isso com um toque de irreverência, já visto em performances do Bando Grito, o que acabou virando uma especialidade do grupo formado por alunos (e ex-alunos) do curso de Teatro da UFU. Mas o que essa peça tem que as outras universitárias-uberlandenses não têm? Uma pitada de ousadia. Resolveram fazer teatro com as próprias mãos, sem nenhum professor PHD dando pitacos sobre realismo pós-contemporâneo, nem leis de incentivo ou programas de extensão patrocinando cada passo. Quebraram a regra de montar os clássicos e partiram para uma dramaturgia própria, recheada de referências pop, misturando Oswaldo Montenegro, Fernanda Young, Jorge Furtado, Friends, King Kong e Orkut, à trama da separação de um homem e a sua parceira.

Ao dividir os bens que ocupavam a mesma gaveta durante algum tempo, Getúlio Góes, encara um indie de calça xadrez e all-star branco, e mostra a fragilidade de mesmo sabendo o porquê de sua separação, finge que as respostas às suas perguntas não existem. O “isso é meu” e o “isso é seu”, é o resultado de uma escolha da parceira após um jantar, levando-o a infantilidades, como fazer cena e comer uma panela inteira de brigadeiro, lembrando o quanto a vida nos condiciona a ter uma terceira (e até uma quarta) mão, e o quanto às vezes essa própria terceira mão condiciona a sua repulsão.

No meio da divisão dos bens que estão dentro da tal cômoda, entre gracejos e caras e bocas, o ator tira uma fita K7 e um toca-fitas, dando início ao que poderia ser um dos momentos mais poéticos do solo. Ao acionar o play, o que se escuta é um bolero-sertanejo (seria do Teodoro & Sampaio ou Milionário & José Rico?) quebrando o clima indie do início do espetáculo. O melodrama de um homem apaixonado que assume a posição de perdedor é interrompido por uma sessão de expressão corporal com uma nota de 100 reais, ao som de uma canção carioca antiga e triste, com o chiado do disco de vinil que ficou na gravação, como em qualquer outra peça universitária. E o momento homem perdedor é apagado, junto com a música do toca-fitas.

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A diversão do espetáculo fica por conta de uma voz em off acompanhada em tempo integral por um black-out (seria preconceito achar que o black-out acompanhado de off seria um efeito usado quando não se sabe como realizar transições de cenas?). É divulgada então uma séria de pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia Bando Grito, como quantas pessoas acham que os pintos das estátuas gregas eram pequenos, ou por quais personagens de desenhos animados os entrevistados sentiam mais tesão.

Em certas horas, a irreverência do grupo dá espaço a um didatismo cênico, reforçando em texto o que a platéia já viu em ação ou imagem, como na explicação na voz em off que o chão está desabando (quando na verdade o público deveria ter o prazer de ler o signo proposto pelo cenário coberto de pedaços de ladrilhos de cerâmica no início do espetáculo), ou quanto o ator explica com gracinhas seu contorcionismo cênico. Seria uma tentativa de serem compreendidos, o que nem sempre acontece em performances?

Após contar uma fábula, o ator encerra a peça perguntando então que escolha se deve tomar em determinadas circunstâncias, no caso a separação. Se fosse uma escolha teatral, eu diria que a de gritar em bando (mesmo que o resultado seja um monólogo) é corajosa.

19 pessoas na platéia sentiram tesão por um avental.

Publicado em 28, January, 2008