Crítica | Diálogo inútil do abismo com a queda por Juliene Codognotto
Pequenos quadros de uma relação longa e incompleta
Fotos: Isaumir Nascimento
Quadro 1
Parte externa do Espaço dos Satyros Dois. Ao fundo, os escombros da Praça Roosevelt, cuja demolição está malemá iniciada, oferecendo um cenário de guerra perfeito. Pelo vidro do bar que fica na entrada do espaço - o olhar atravessando as duas estantes de livros do Bac - vêem-se partes dos corpos de um casal esquisito. De braços dados, dividem um guarda-chuva. Com o corpo bastante curvado, aparentam cerca de trezentos e setenta anos cada um. Vestem chapéus – o dele, de palha, o dela, com uma flor na lapela - e trazem nos lábios uma eterna menção frustrada de dizer algo.
(A partir do próximo quadro, estamos na parte interna do Espaço dos Satyros Dois)
Quadro 2
Vista do palco para a platéia. De tempos, em tempos, os cerca de 30 espectadores soltam risos de incômodo diante das radicalizações a que assistem no palco. Ninguém sorri com alegria. Ninguém dorme nos longos silêncios. Expectativa é o que melhor define as expressões destas pessoas, olhos fixos nos atores.
Quadro 3
Vista da platéia para o palco. Uma mesa coberta com uma estranha toalha amarela com restos de qualquer coisa aqui e ali. Em frente a ela, dois atores com maquiagem e comportamento que remetem ao clownesco estão sentados sobre suas malas em “posição de discussão profunda”, anunciada por eles segundos antes.
Soltam frases curtas com gestos precisos que as representam.
_ Preciso fazer uma confissão – com uma das mãos levantadas - Você está preparado?
Soltam, depois, textos intermináveis sobre qualquer coisa sem importância. Incomodam-se um com o outro constantemente. Interrompem-se. Voltam, enfim, ao silêncio.
Silêncio.
Quadro 4
Vista do palco para a platéia. Na platéia, olhares de expectativa. Ninguém dorme.
Quadro 5
Vista da platéia para o palco. Os dois atores decidem caminhar um pouco. Correm em círculos, cada um para um lado, encontrando-se a cada volta. Em círculos, para não se distanciarem daquele lugar. Porque não querem se distanciar daquele lugar. Porque não podem se distanciar daquele lugar. Porque não sabem se querem nem se podem se distanciar daquele lugar. Pensam na hipótese de andar lado a lado, mas permanecem nos seus ciclos individuais. Cansam. Param de caminhar um pouco.
Quadro 6
Vista do palco para a platéia. (A cada volta, Ela, a mulher do casal, salta as malas dela e de seu esposo e solta gemidos engraçados que demonstram sua dificuldade) A platéia, aliviada por poder enfim soltar toda a angústia de quem assiste a uma relação que não sai do lugar a 350 anos, ri a cada pulo. Em seguida, corta o riso, envergonhada de rir do cansaço de uma pobre velhinha de aproximadamente 375 anos.
Quadro 7
Vista da platéia para o palco. Um mutilado ao fundo da cena aparece somente da cintura para cima. Anuncia, com uma música péssima, que “fez” e precisa que alguém o limpe. Ela, que costuma limpá-lo, parece dormir. Ele tem nojo de fazer o serviço.
Quadro 8
Vista do palco para a platéia. Uma moça faz cara de nojo quando Ele diz “tá fedendo”.
Quadro 9
Vista da platéia para o palco. Num dado momento, ela acorda e briga com ambos por não terem chorado sobre seu caixão. Então, utilizando um despretensioso recurso para radicalizar as repetições e experimentar o distanciamento, Ela repete incessantemente uma fala, como se tivesse enroscado. A palavra “Nada” é dirigida, alternadamente, a um e outro personagens, com tonalidade e expressão idênticas não menos que 50 vezes. O ator que representa o mutilado se cansa, se levanta normalmente com uma garrafa d’água e se aproxima do outro ator, ambos de volta aos seus corpos de “gente normal”. Eles a observam por um tempo, impacientes.
Quadro 10
Vista do palco para a platéia. Uma pessoa cruza a perna para o outro lado.
Quadro 11
Vista da platéia para o palco. O espaço se transforma numa baladinha, com trilha e iluminação próprias, enquanto Ela limpa o mutilado com uma toalha de rosto.
Quadro 12
Vista do palco para a platéia. Uma moça olha para o lado, constrangida.
Quadro 13
Vista da platéia para o palco. Os dois resolvem que chegou a hora de se separarem, afinal foi o que vieram fazer. Durante o tempo todo da peça, perguntaram-se se era mesmo aquele o lugar. Mas, neste momento, não importa realmente. Ela abre o guarda-chuva. Os dois afirmam, em uma das poucas passagens piegas, que sentirão saudades.
Silêncio.
Tudo incompleto, inexplicado. Tudo angústia e expectativa. As relações humanas completamente relativizadas pela indefinição do espaço e do tempo. Tão incompletos e silenciosos quanto estavam ao chegarem ao Espaço dos Satyros Dois, o casal termina a apresentação sem nos dar respostas. Eu nem queria.
Quadro 14
Parte interna do Espaço dos Satyros Dois. Vista do palco para a platéia. Uma pessoa pensa se desligou o celular. Tocar no meio de um silêncio como esse seria muito vergonhoso.
4 minutos de silêncio. Antes e depois de cada fala.
Publicado em 11, August, 2008



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