Crítica | Dias Raros por Maurício Alcântara

Sobre lembranças, samambaias e migalhas

Foto: Sissy Eiko

ProXImidadeX, além de um indício de que o XIX é fã do Xou da Xuxa, é também um projeto que visa a apresentação de outros grupos na Vila Maria Zélia, sede do Grupo XIX de Teatro. Dias Raros, espetáculo do Teatro da Travessia inspirado nos contos do livro homônimo de João Anzanello Carrascoza, não pega emprestada apenas a sede do XIX, mas também o diretor Luiz Fernando Marques, que orienta a produção.

É impossível não entrar na Vila Maria Zélia sem se conectar imediatamente com o passado daquele lugar com cara de cidade cenográfica e ar de interior (ainda que o ar ali não seja exatamente limpo como no interior), e é dessa ambientação que a peça se apropria para promover o resgate de pessoas do passado. Não, não é uma peça sobre bombeiros do tempo de outrora, mas sobre lembranças de infância - aquelas cuja importância só reconhecemos muitos anos depois, quando já não sabemos mais como revisitar esse passado.

Nã-não, não é um tema ultrainovador, e tampouco as histórias apresentadas trazem algo de fantástico ou inesperado: estamos falando de lembranças de temporadas na casa da avó com a ausência de outras crianças, histórias de terror contadas por tias, irmãos que brigam apesar de se amarem - ou seja, momentos e relações absolutamente banais, mas que são fundamentais para a vida emocional de quem as vive.

Por serem genéricas e cotidianas, estas situações permitem às pessoas da platéia que reconheçam suas próprias infâncias e familiares no que é apresentado - e aqui há o mérito de não relacionar a história a um único personagem central, permitindo à platéia que realize suas conexões com o próprio passado, quase como se cada um pudesse encontrar ali um pedaço de sua história. Estas conexões são fortalecidas pelas interações dos atores com a platéia, que seguem a mesma linha de Arrufos, por meio de olhares e perguntas que não constrangem ou superexpõem quem está ali para assistir.

Muito da temática e da abordagem poética de Dias Raros remete a Aldeotas (de Gero Camilo), ou Alguns Leões Falam (da Cia. Clara, de Belo Horizonte), para citar apenas estes dois exemplos. Assim como nessas duas produções, o clima é intimista, próximo: na peça não há trilha sonora e a iluminação é, na verdade, uma luz branca uniforme que ilumina tudo igualmente - inclusive a platéia, que se senta ao redor do pequeno espaço onde a encenação acontece. Como elementos cênicos, apenas uma mesa velha, uma samambaia, uma caixa de papelão vazia e uma porção de lençóis e toalhas desbotados de tanto uso. O resto é trabalho para os quatro jovens atores que, ainda que não houvesse aplausos no final, já teriam coletado um retorno da platéia só de ver tantos olhos cheios d’água (que não tinham a possibilidade de serem ocultados pelo escuro de uma platéia convencional).

Milhares de lembranças de férias na casa de minha avó

Publicado em 19, August, 2008