Crítica | Do Claustro por Maurício Alcântara
Videoclipe Barroco

Foto: Divulgação
Quase fetichista minha escolha pelo espetáculo Do Claustro: duas atrizes que não conhecia, dirigidas por um encenador que eu não conhecia, e com um texto que eu também não conhecia. Ao chegar no Espaço dos Satyros na data da estréia, outra surpresa: no pequeno bar, nenhum rosto conhecido esperando para assistir ao espetáculo.
Desde o início da Bacante, uma idéia é cobrir não somente as montagens “famosas”, mas também aquelas que não ganham a atenção devida nas divulgações por aí. O risco de encontrar bobagens é grande (não que as peças “divulgadas” estejam imunes a isso - na verdade, costuma ser o contrário, mas enfim). Sempre existe a chance de descobrirmos pequenas pérolas, como foi o caso do Adubo brasiliese. E no fim, depois de assistir a peça, a vi na lista que a “Bravo Recomenda”, com textos aparentemente tirados do rilise (ou será que a revista realmente recomenda reparar nos móveis rústicos em cena?).
A sinopse do espetáculo - confesso - me dava um pouco de medo. Para qualquer coisa que se anuncie acontecer no Brasil colônia do século XVII, logo me vem à cabeça a lembrança das minisséries de época da Globo, e isso não é bom. Felizmente, a direção do espetáculo não se enveredou neste pedaço de péssimo caminho, preferiu ficar num minimalismo mais saudável.
Em cena, no centro de uma arena improvisada, duas freiras trocam confidências sobre seus amores e sobre as opressões sofridas por serem mulheres na arcaica e machista sociedade bahiana “dos tempos de outrora”. As duas atrizes se desdobram para transparecer as oscilações de cada personagem, mas o ritmo acelerado que o espetáculo assume conflita com a sutileza do relacionamento entre as duas. As situações, motivações e argumentos das personagens são claros, mas ficaria mais fácil acreditar na relação entre as duas se houvesse ainda mais tempo para olhares, pensamentos, pausas e respirações.
O ponto mais complicado da montagem é o texto. Na tentativa de fazer um panorama do Brasil colônia e da condição das mulheres em uma sociedade até hoje machista, o resultado acaba parecendo muito mais um videoclipe recheado de pequenos apanhados históricos e sociológicos do que uma obra teatral. Talvez essa mesma preocupação que senti com relação à veracidade dos fatos tenha faltado na hora de refinar o texto como obra teatral, com uma amarração mais dramática e menos ingênua. Ou, talvez, esta amarração pudesse aparecer mais no resultado final, na encenação.
muitos minutos desperdiçados pela pressa
Publicado em 21, January, 2008

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