Crítica | Em Alto Mar por Leca Perrechil

Quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal

Fotos: Divulgação

leca21.jpg

Três homens entram de terno no espaço cênico (aqui vamos chamá-lo de palco) ao som do canto gregoriano pop Ameno e se encaminham para o centro. Com o desenrolar dos tons da música, os senhores (uso esse termo não por mera formalidade, mas por respeito aos cabelos brancos deles) compõem quadros de cena estáticos, variando as partituras físicas de acordo com o drama explícito na música. (Ficou curioso? Clique aqui!!!). Poderia ser uma cena bonita, se fosse outra música, outros movimentos e não fosse tão clichê com um toquezinho de brega (como sempre, nada contra quem gosta de apreciar movimentos simulando desespero ao som de canto gregoriano… super-apóio!).

Este é o início da peça Em Alto Mar, no Centro Cultural São Paulo, uma comédia de Slawomir Mrozek, do teatro do absurdo. Na história, três empresários naufragam e conseguem sobreviver em alto mar aconchegados numa espécie de bote salva vidas (o da peça tinha uma vela). Com o fim do estoque de comida, os três começam uma discussão inútil de quem deve se sacrificar para que os outros dois não morram de fome, o que origina um jogo de persuasão, com direito a discursos políticos e apelo para a árvore genealógica. A situação absurda a que a narrativa chega (já que se trata do teatro do absurdo, né!) se revela no fato de aparecerem várias alternativas plausíveis ao salvamento deles, mas nenhuma delas ser aproveitada, tamanha fixação que têm em convencer um a morrer pelos outros. Algumas cenas até que tinham sua graça, mas logo a fórmula se esvaía com o excesso de pastelão.

Na proposta do espetáculo e do texto, os personagens eram propositadamente estereotipados. Porém, mais uma vez as colheradas a mais da direção de atores fez com que algumas piadas não vingassem. Um exemplo é o personagem estereótipo do gay executivo. Ele começa discreto, até o estereótipo do manipulador se referir a ele como afeminado. A partir daí, o resto da atuação é extremamente afetada (eu sei que é chato sempre citar como referência Zorra Total, por isso, compararei à Praça é Nossa). E isso envolve todos os personagens, que vão ficando cada vez mais surtados, até o espetáculo inteiro estar dessa mesma forma histérica. Além dos três, um 4º e um 5º personagem (interpretados pelo mesmo ator), também aparecem, como aparições curtas. Saindo do nada e indo para lugar nenhum – mais um quê do Teatro do Absurdo.

Para constar, o estereótipo gay aparece em uma cena com solução cênica divertidinha, acima da média do espetáculo. Quando outro personagem está fazendo seu discurso emocionado, o afeminado faz bolinhas de sabão para dar o clima da fala e acaba entrando em alfa e se empolgando com as bolinhas.

 

O que mais ninguém agüenta é quando o espetáculo tenta fazer uma ponte com a situação política atual do país de maneira muito explícita, como levantar uma placa com os dizeres “Fome Zero”. O texto da peça trazia uma carga de crítica a toda a politicagem humana, mas de uma forma mais sutil. Cenicamente, era desnecessário reforçar a mensagem com tal referência.

2 mulheres se abanando na platéia…. com o mesmo leque

Publicado em 29, January, 2008