Crítica | Êxodo por Juliene Codognotto
Falar o quê?
Fotos: Cris Seciuk / Clix
Estamos todos na Bacante falando de critérios para escolher entre as muuuuuuuuitas peças em cartaz no Fringe – a mostra “alternativa” do Festival de Curitiba. No caso de Êxodo, encenada pela companhia curitibana Teatratividade Produções, fiquei nos mais básicos: proximidade e horário, até porque, pela sinopse, esperava um relato clichê de um fenômeno antigo que, junto com muitos outros fatores, é responsável pela doideira que se vive hoje nas grandes cidades. Afinal, o que a gente já não ouviu ainda sobre êxodo rural desde a quinta série?
No entanto, o que foi apresentado naquele teatro-galeria (que parece mais galeria que teatro), não era coisa-de-ouvir, era coisa-de-ver, muito diferente do que se ensina na escola e, sobretudo, muito diferente do como se ensina. De tanto ver, somos provocados a ver mais. Ver e refletir sobre um fenômeno tão complexo sem que os atores precisem formular uma única frase, uma única palavra. Apenas alguns sons, algumas sílabas e, sobretudo, uma série de imagens que se repete e progride lentamente sem dar sono (incrível, não?).
Simplicidade que em vez de simplificar, aprofunda a temática, dando liberdade para formularmos, dentro de nós, mais reflexões do que quando lemos uma reportagem sobre o assunto e acreditamos estar ali tudo o que se pode saber sobre aquilo. Talvez não haja mesmo nada mais a dizer no código restrito das palavras, mas há o que mostrar, o que pensar.
Figurino simples, cenário formado por um rio e algumas flexíveis caixas de madeira (aquelas de feira, sabe?) que viram berço, cadeira, carroça, barraco… Personagens estereotipados e definidos por gestos padronizados e pelo som de seu riso, de seu choro, de sua tosse. Aos poucos, provocados, nossos sentidos vão aguçando e então todos os sons e as expressões se tornam preciosos e repletos de significados. Tanto que quase podemos ouvir o ronco do estômago dos personagens quando eles fazem menção à falta de alimento esfregando a mão na barriga.
Um dos momentos mais emocionantes é quando mãe e filhos retornam para o sítio, fugindo da violência do pai – provocada, claro, pelas dificuldades enfrentadas. Sozinho, ele se lembra dos bons momentos em família. O público, para que possa reviver com ele essas emoções, assiste à repetição de cenas já vistas, mas desta vez sem a participação das atrizes. O pai, então, não tem a filha para abraçar, mas repete o mesmíssimo gesto e ouve-se, ao fundo, a risada dela, já tão conhecida. A lembrança e a saudade, definidas de maneira tão simples, tocam porque não se limitam a lamentos textocêntricos de um personagem linear e naturalista.
A história, não preciso contá-la. Quem vive numa cidade grande ou já passou por uma, viu uma infinidade de exemplos de famílias que procuraram uma vida melhor e encontraram ainda mais dificuldades, além de perderem sua união. Nesse âmbito, que podemos denominar dramatúrgico, só uma fragilidade desponta – não era preciso fechar o final feliz dos personagens, como se fosse uma fábula. Numa peça tão cheia de sentidos, eu teria preferido imaginar os caminhos trilhados por eles no futuro.
Só 11 privilegiados na platéia.
Publicado em 25, March, 2008




7 Comentários
Pular para o formulário de comentário | comments rss [?] | trackback uri [?]