Crítica | Gaivota - Tema para um conto curto por Fabrício Muriana
Ousadia e risco em montagem de Tchekhov
Foto: Divulgação
Na sexta-feira, dia 15/06, fui pela primeira vez assistir Gaivota - Tema para um conto curto, montagem da obra de Anton Tchekhov, dirigida por Enrique Diaz e encenada por boa parte da Cia. dos Atores. Escrito no final do século dezenove, o texto é desses desafios absurdos para qualquer grupo que se proponha a realizar a montagem.
Na fila, claramente identificávamos a classe teatral. Não aquela que poderíamos chamar de “companheiros de classe”, mas aquela que vemos à distância em palcos da cidade. Palcos como este, do Sesc Pinheiros, por exemplo, que, neste caso, foi totalmente adaptado para a montagem, esquecendo (Graças a Deus) as poltronas acolchoadas e o formato de palco italiano. Todos se acomodaram em três grandes arquibancadas montadas quase como uma semi-arena. De lá víamos um chão branco, vazio e sete atores sentados em cadeiras.
O que falar da montagem? Minha primeira resposta seria “Não sei”. Tem coisa demais. Imaginem tudo que gostaríamos de ver nas peças em cartaz, tudo junto, numa apresentação só. Gaivota - Tema para um conto curto é um latifúndio de sentidos, numa cidade com problemas de distribuição deles por seus espetáculos. Saí do teatro puto. Parecia uma apresentação feita da classe para a classe. Eles pressupõem em diversos momentos que já conheçamos a obra, e mesmo conhecendo, seria difícil apreender metade dos símbolos construídos pelos atores numa primeira apresentação.
Sabe aquela sensação de quando você vê pela primeira vez Cidade dos Sonhos? Chegam aquelas perguntas na cabeça “será que eu sou tão limitado assim?”, “tudo bem, eu estou com medo, não entendi nada da história, mas meus sentidos foram profundamente afetados”. Aquele sei lá o quê de incômodo. Fiquei assim por todo o sábado, quando resolvi assistir de novo ao espetáculo, o que me aclarou bastante as idéias.
Gaivota - Tema para um conto curto é dessas peças em que se arrisca muito quem atua, sobretudo num processo colaborativo, pois a falta de chão é algo sempre presente. Arrisca-se demais quem dirige, principalmente se esse se propõe a subir no palco e se jogar também, caso de Enrique Diaz. Arrisca-se um monte também quem cede o espaço, já que o limite para o fracasso está sempre muito próximo.
Tudo é planejado pra pecar pelo excesso. Se a idéia é trocar de personagens, eles trocam inúmeras vezes e os personagens se confundem em diversos momentos (os nomes russos e o trabalho corporal mediano também ajudam bastante). Se a idéia é usar simbolismo, tudo que está em cena, e é muita coisa, pode se transformar em gaivota. Se a idéia é fazer metalinguagem, a radicalização é tanta, que a linha narrativa chega a ir pro espaço.
Fica aqui uma indicação ao Sesc, específica para esta montagem: façam pacotes de desconto para quem quer ver mais de uma vez. Não é uma obra pra ser compreendida de pronto, muito menos comendo pizza depois. O aviso, inclusive, é dado ao longo da peça. Algo didático.
No final das contas, no segundo dia fiquei mais aliviado. Mesmo assim recorri ao texto, pra entender que os caras editaram o que bem quiseram, criaram falas mil, enfim, usaram basicamente o que interessava da linha central da narrativa. Sem legendas para quem não leu. Um risco imenso (se tivesse visto só uma vez, teria odiado), uma liberdade maior e uma peça pra ser vista e revista. Sem pizza marcada pra depois.
3,1416… caras de conteúdo a cada 4 pessoas
Publicado em 18, June, 2007

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