Crítica | Gota D`Água por Juliene Codognotto
Poesia-social-sofrida
Foto: Divulgação
Imagine três horas de peça em que os atores recitam versos escritos em 1975. Um saco!, você deve ter pensado, a menos que você seja poeta. Agora imagine que isso pode ser envolvente e divertido. Difícil, mas a Companhia Breviário (formada pelas companhias São Jorge, Simples e Domínio Público, além de alguns atores sem grupo fixo) consegue tal façanha em sua releitura de Gota D`Água, peça escrita em plena ditadura militar por Chico Buarque e Paulo Pontes, com a proposta de transportar a Medéia de Eurípedes, grego doido, para a atualidade e a realidade brasileiras.
Com pouco tempo de peça, ficamos atônitos ao perceber as rimas perfeitas e verossímeis do texto que não são chatamente declamadas, mas sussurradas, gritadas, vividas, se tornando ainda melhores. Mérito dos autores, sem dúvida - segundo Georgette, para encenar este texto é só não atrapalhar.
A história de Joana, mulher abandonada pelo companheiro Jasão que resolve se vingar do rapaz, é uma desculpinha usada pelos autores para falar de problemas sociais graves e relevantes, tais como a submissão feminina e o preconceito contra a mulher, os limites e a fragilidade da mobilização popular baseada na condução das massas, os efeitos da ascensão social e, sobretudo, a exploração dos trabalhadores no pagamento dos juros das casas aqduiridas em conjuntos habitacionais (onde vivem Joana e a maior parte dos personagens da peça). Nestes locais, administrados por falsos agentes sociais/ empresários bem-intencionados , não é raro que o morador adquira uma casa por X reais e, depois de dois anos pagando prestações crescentes, esteja devendo 2X de reais.
A crítica social ganha contornos mais coerentes para o nosso tempo quando Egeu - o vizinho responsável pela mobilização contra Creonte (o dono do conjunto habitacinal) - questiona a lógica do trabalho e da comercializacão do tempo e da vida, afirmando que os moradores deixam a cachaça, o samba, a diversão, deixam até mesmo de ir aos estádios e de comer para poupar o dinheiro de uma prestação que nunca acaba. Dessa forma, os trabalhadores buscam se inserir numa lógica nefasta em que, por mais que troquem vida por dinheiro, o dinheiro nunca será suficiente para que possam viver decentemente. De 75 pra hoje, intensificamos o mecanismo e cada vez mais pessoas se matam de trabalhar com vistas a se tornar o novo Abílio Diniz. Claro, não conseguem. A grande diferença é que hoje, além de tudo, não podemos nos reunir e ir reclamar com nosso Creonte-explorador. A menos que alguém aí tenha o celular ou o blog do fluxo internacional de capital.
Em contrapartida a toda essa seriedade do texto, somos recebidos no SESC Paulista (adaptado para o formato de semi-arena) por todos os atores e músicos no palco, cantando e dançando animadamente. Um pequeno e simples ritual regado a vinho, que lembra de cara o espetáculo da Companhia Simples, Se eu fosse eu, em cartaz no N.Ex.T. Todo o prólogo é pura “fritação” das jovens atrizes da Simples, que não páram um segundo no palco e interagem com a platéia, até que o público esteja acomodado.
Passado isso, somos bombardeados por tragédia atrás de tragédia e, no entanto, rimos e sorrimos, tanto para as lindas músicas do Chico como para a riqueza da personagem de Joana. Criação corajosa da atriz Georgette Fadel, Joana é um misto perfeito de dramaticidade e comicidade, que conquista a simpatia do público. Tanto que consegue jogar todos nós contra o safado do Jasão que, depois do sucesso de sua composição Gota d`Água, trocou o companheirismo da mulher que sempre o ajudou pela riqueza da herdeira de Creonte. É o tradicional: “seria cômico se não fosse trágico” e, quase paradoxalmente, ao radicalizar o trágico sem medo de fazer “teatro sofrido”, Georgette valoriza o cômico de sua personagem.
A entrega da atriz acaba evidenciando problemas na atuação de Cristiano Tomiossi, intérprete de Jasão, que fica diminuído diante dela, embora seja o suporte para o brilho da protagonista. O que me incomodou mesmo é que senti falta de um Jasão menos moleque perdido e mais encantador e “malemolente”, que apesar de tê-la abandonado, ainda a mantém presa ao seu encanto.
Finalmente, vale relatar aqui que os direitos autorais desta obra são pagos ao Chico e ao irmão do já felecido Paulo Pontes. Natural, né? Afinal todo mundo sabe que os parentes são essenciais no trabalho dos artistas, não? O que seria de um dramaturgo se enquanto ele escrve, não estivesse lá seu irmão mais novo pentelho gritando em sua orelha? Ainda nesta linha de raciocínio, ou seja, ainda falando sobre os mega-coerentes critérios de pagamento de direitos autorais, acrescento que a montagem da Breviário não poderá ser exibida nem no Rio, nem em BH, pois nestas cidades há grupos que compraram a exclusividade dos direitos. Bem, azar o deles…
5 dias cantando “Deixe em paz meu coração…”
Publicado em 20, August, 2007

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