Crítica | Hamlet por Fabrício Muriana

Hamlet, completo

“Você sabe que estou certo. Sabe que há um monte de trabalho a ser feito. Pode parecer impossível, mas, se todos fizermos a nossa parte, descobriremos alguma coisa. Mas você não tem muito tempo. Tem cerca de dez minutos, na verdade. Então tudo recomeça. Portanto, faça algo com o tempo que tem.”

Fotos: Sandra Delgado

São 17h38 de um domingo quente e o meu bauru ainda não saiu. No final da Rua Dona Antônia, muito próximo do início da Rua Alagoas, onde está a Fundação Armando Álvares Penteado, não encontrei ninguém que soubesse onde ficava a FAAP. Teatro então, só sabiam dos da Consolação (Commune e Fábrica) e dos da Roosevelt (me recuso a listar).

Adentro o Museu de Arte Brasileira, já na instituição, e vislumbro as obras de Aleijadinho. Não há dúvidas de que cheguei aonde deveria. A fila de retirada dos ingressos conta com uma organização impecável. Recebo um ingresso em que, na leitura ocidental - da esquerda pra direita, de cima pra baixo - vemos antes o logo do Bradesco PrimeArts que apresenta a obra de “Willian” (sic) Shakespeare.

Mas afinal, a Lei de Incentivo à cultura, anunciada depois da infinita lista de apoiadores e do patrocinador exclusivo - novamente o Bradesco Prime - não é aquela em que as empresas destinam uma porcentagem do seu imposto para patrocinar uma obra artística? Não compreendo. Os ingressos custam R$ 80,00. Pois, cazzo, onde foi parar todo esse dinheiro público captado?

(No momento em que escrevo esse texto, recebo uma mensagem anunciando que Cliente ClaroClube tem 60% de desconto no Miss Saigon!)

Comprei meu ingresso com duas semanas de antecedência e mesmo assim vou assistir à peça da fileira J. Shame on me, que não me planejei suficientemente. Será que houve alguma reserva, com verba pública, de ingressos para os garbosos clientes do Bradesco Prime? Ou será que a lotação se deve aos neonazistas simpatizantes do Capitão Nascimento? Ou, ainda, às senhorinhas reunidas para dar guardachuvadas no Olavo de Paraíso Tropical? Vou me informar.

Sentado na poltrona, ao lado do público cheiroso, lembro do Pedro Neves, assessor de imprensa da equipe da Factoria Comunicação, que nos conduziu em banho-maria por semanas. Pedro é o nosso Godot. Nem disse que havia cota de imprensa, nem disse que não. Se levássemos só a equipe de editores da Bacante (desprezando os colaboradores), o valor já seria superior à manutenção do site por um ano. Mas tudo nessa vida tem um preço, ora bolas. Obrigado por nada, Pedro.

Ao meu lado, quando ouvimos as primeiras palavras de Wagner Moura - “por favor não tirem fotos ao longo do espetáculo” - uma senhorinha sentencia pra mim “ele está rouco”. Eu digo “falamos disso no final da peça”. Dez ou quinze falas depois ela muda de idéia e fala à sua companheira “ele está fanho”. Não faltaram outras intervenções críticas de gatilho rápido ao longo da peça. No primeiro diálogo de Hamlet com Roze… e Guild… ela dispara “que lindo”. E quando acendem as luzes para o intervalo, conclui “é uma peça tensa”.

Adoro o público sem educação, desses que comentam no meio, que tiram foto quando não pode, entram bêbados na sala, que tossem, que abrem pacotes de bala. Mas há poucas coisas mais insuportáveis que o perfume do público da FAAP. E é certamente algum acordo tácito. Quando assisti Variações Enigmáticas, com Paulo Autran e Cecil Tirré no mesmo teatro, lembro exatamente desses cheiros acumulados.

“O maior ator do Brasil tem 22 anos e chama-se Sérgio Cardoso”, escrevia Paschoal Carlos Magno numa crítica publicada em 08 de janeiro de 1948. A peça era Hamlet. “Mas quero registrar que saí do teatro envolvido e arrebatado pelo espetáculo. Ele me acompanhou durante a noite e pela manhã. Me fez pensar, ler o longo texto do programa, em que o lúcido Aderbal disseca as raízes e a estética da montagem” disse Alberto Guzik, um dia depois de assistir ao Hamlet da FAAP. “Este Hamlet é indispensável e antológico justamente por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo emocionante e contagiante pela própria grandeza do Teatro” ressalta Sérgio Sávia Coelho, em sua crítica ao Hamlet do Wagner Moura e da Bradesco Prime Arts em 2008.

Vamos brincar então de crítica normativa. A mim, este Hamlet se apresenta como uma aula, em tudo que ela tem de bom e ruim. Sobrou autonomia para traduzir e faltou pra editar. O resultado é mais uma montagem textocêntrica. Um espetáculo anunciado pelo release com duração de 2h50min, dura verdadeiramente 3h40min. Shakespeare e Aderbal deveriam saber que Faustão no domingo é sagrado. “Não foi feito nenhum corte, mas conseguimos deixar o texto mais comunicativo” disse Aderbal. Shakespeare agradece pela lapidação do clássico. O bem-fazer parece estar em todo lugar. Com 80 reais por ingresso, eu já deveria supor.

A entrega de Wagner Moura e a inesperada presença de atores como Gillray Coutinho, num Polônio inesquecível, faz com que tenhamos alguns lapsos de esquecimento de todo o invólucro do espetáculo. Mas isso não é suficiente para que esqueçamos as diversas vezes em que Wagner Moura fala para o chão, como se ali - ou no inferno, quem sabe? - estivesse seu público. É o Hamlet com mais perdigotos da história. Wagner Moura atua com mais força do que técnica. Por sorte, sua técnica é suficiente e os diálogos e monólogos parecem um pouco menos infindáveis.

Mas esta forma, a que vem? Guzik diz que ouviu, na saída da peça, pessoas comentando que este espetáculo não era tão bom quanto o de Enrique Diaz. Não acho uma questão de bom ou ruim, nem de comparar. Mas esse é um Hamlet pra ser visto antes do da Cia. dos Atores. Quase como aqueles livros Para entender Ensaio.Hamlet. Se pudesse situar essa montagem no tempo, acho que a década de 60 seria o momento ideal pra que ela entrasse em cartaz. O vídeo estava sendo descoberto. Ok, não haveria uma projeção daquele tamanho, mas Nam June Paik já poderia montar com TVs aquele mesmo aparato que vemos na FAAP, inclusive transmitindo ao vivo. O efeito cênico seria muito próximo e haveria uma apropriação da linguagem do vídeo pelo teatro que dialogaria com o seu tempo (década de 60).

“Descobri muita coisa traduzindo. Hamlet é a peça de Shakespeare que mais fala sobre teatro: esse foi o mote de minha direção”. Disse o release que disse Aderbal Freire Filho. Uma obra por meio da qual podemos falar de política, religião, psicologia, guerra, amor, e o foco escolhido foi o teatro. Cada um escolhe o que quer. As aspas do release mais especiais ficam por conta do figurino: “Apesar de uma discreta inspiração na Renascença, os figurinos de Marcelo Pies não determinam época nem local. ‘As roupas são neutras, equilibram o épico com o atual, mas não são roupas de hoje em dia. O espetáculo mostra uma atualização profunda, mas não busca a modernidade aparente’, analisa Aderbal.” Foi o mesmo que não falar nada. De minha parte vejo esse figurino apontando mais pras lojas da Oscar Freire do que para a história do bardo inglês.

No riocenacontemporanea, o ator que interpreta o mecânico em Tropa de Elite se irritou quando a décima pessoa o abordou perguntando “tem ou não tem carburador?”. Não, não houve barraco. Ele disse “Cara, se você está aqui, deve saber que aquilo é um trabalho artístico”. Na montagem da FAAP estão o Baiano Laertes, o Neto Horácio, o Capitão NasciHamlet e claro, como já foi dito, o Bradesco Tropa de Elite. O resultado é uma grande ironia, como já se previa quando a matéria sobre a montagem saiu na capa da Bravo.

Wagner Moura afirmou que gostaria que fosse só mais um Hamlet. Besteira, ele fez, como disse Sérgio Sálvia Coelho, o Hamlet da sua geração. Ao final da experiência de assistir a essa montagem, pode se compreender que Hamlet, mesmo com uma montagem textocêntrica, segue totalmente atual. Não há dúvida que continua havendo algo de podre no reino da Dinamarca.

“Tempo é um absurdo. Uma abstração. Uma única coisa que importa é este tempo. Este momento um milhão de vezes. Você precisa confiar em mim. Se este momento se repetir suficientemente, se você continuar tentando - e você precisa continuar tentando - , por fim você chegará ao próximo item da lista.”

Não tem preço

Ps: As citações do início e do final dessa crítica são do conto Memento Mori, de Jonathan Nolan.

Publicado em 9, September, 2008