Crítica | Henfil Já! por Maurício Alcântara
Tá vendo alguma esperança?

Foto: Cris Seciuk / Clix.
Três carinhas em roupas neutras, num palco praticamente vazio, fazendo uso apenas de seus corpos e vozes (tá bom, tem um ou outro aderecinho também, vai…). Não há construção de personagens e o espetáculo segue o formato de diversos shows cômicos, assemelhados à stand-up comedy que tem proliferado por todo o país como gremlins em contato com a água.
Eles poderiam falar sobre as mulheres curitibanas (como compreendê-las?), sobre maneiras de se acabar com o casamento, ou ainda sobre como os homens transam e as mulheres fazem amor, entre diversos outros temas sexuais e conjugais - mais que representados em todo o festival. Mas não: em Henfil Já! a opção é por fazer rir de nós mesmos, o povo brasileiro, e o recorte remete diretamente ao período da nossa ditadura militar.
Aí você, leitor da Bacante, já sabe o que vamos perguntar: faz sentido falar ainda sobre a nossa ditadura, ainda mais numa peça feita por atores jovens demais para terem acompanhado de perto tal período? Pois bem, pra começar, o projeto não nasceu para falar sobre o assunto. A idéia era estudar correspondências pessoais e que falassem do Brasil e do brasileiro. Nessa pesquisa de correspondências, encontraram textos de Henfil, um dos cartunistas fudidos (no bom sentido) responsáveis pelo Pasquim. Como muito do material estudado foi produzido durante seu exílio nos EUA, impossível que o contexto político não influenciasse na temática: diferenças culturais, saudades da terra das palmeiras e do sabiá e sua hemofilia são alguns dos assuntos que o autor utilizava para fazer rir e, principalmente, pensar.
Os três atores esbanjam energia (tipo pilha Duracell, sabe?), traduzindo cada trecho de cada texto em cenas divertidas e originais - e vamos combinar que originalidade em espetáculos cômicos tem faltado um bocado, não? Ao menos na programação do Fringe, sim. E o mais importante é que o texto, uma mistura da biografia do autor com sua obra, nos mostra o quanto o “já” do título é tremendamente pertinente: provoca a platéia apontando como nos dias de hoje o povo brasileiro ainda é submisso, tímido (apesar de irreverente) e, principalmente, um povo que ainda não aprendeu a defender aquilo que deseja, graças a sua “mineirice calvinista e luterana”.
Ao final de um espetáculo bem-humorado e praticamente irretocável, fica a questão: qual será o grau de interferência do texto nas pessoas que estavam naquela sessão lotada? Quando as pessoas pararão para pensar nas submissões mínimas, do dia-a-dia, nas situações em que são forçadas a se contentarem com aquilo que sabem, no fundo, que é insuficiente ou limitado? E essa análise pode ser feita nas menores esferas políticas. É possível fazer, por exemplo, uma provocação bastante próxima: estamos satisfeitos com o que temos visto no teatro e nos festivais? E na crítica, seja feita em jornais ou revistas engraçadinhas de teatro?
3 mães + 1 vó, orgulhosas, na platéia
Publicado em 25, March, 2008

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