Crítica | Imperador e Galileu por Marco Albuquerque
Quando a realidade suplanta a ficção
Foto: Melagrião
Toca o terceiro sinal no Sesc Santana, os atores entram no palco e é iniciado o espetáculo Imperador e Galileu, dirigido por Sérgio Ferrara a partir do texto de Henrik Ibsen.
Assim que os atores entram em cena, um senhor começa a tossir fortemente na terceira fila. Uma outra tosse, alta e seca, vem da fila J, umas duas fileiras atrás de onde estou sentado.
No canto esquerdo do teatro ouve-se uma tosse tímida. Novas tosses são ouvidas nas primeiras fileiras do teatro. Depois no meio. Por fim, as tosses chegam às cadeiras mais afastadas. O movimento recomeça: nas primeiras fileiras, nas fileiras do meio e depois nas fileiras próximas à entrada do teatro. Seria tão mais fácil se as pessoas levantassem as mãos enquanto tossissem… assim o efeito da ola poderia ser melhor aproveitado…
À minha esquerda, um senhor balança freneticamente um molho de chaves.
Um zíper de bolsa de mulher é aberto.
Alguns segundos depois o zíper é fechado.
Muitas e muitas cadeiras rangem.
Uma risada. Somente uma. De somente uma pessoa. Uma risada completamente solitária.
Uma fungada forte vem de algum lugar à minha direita.
Tosses de tenores ecoam pela sala.
As sopranos tossem em seguida.
Os barítonos tossem e enchem a sala.
As contraltos, as sopranos e os tenores tossem juntos.
Tenho ímpeto de levantar da minha cadeira e reger a sinfonia. Infelizmente não estou trajado como um verdadeiro maestro, e a responsabilidade de reger tantas tosses seria enorme. Permaneço sentado e deixo o ímpeto passar.
Num arroubo de criatividade sonora um celular começa a tocar. As tosses milagrosamente param. O celular não. O celular continua a tocar, e a tocar, e a tocar. Todos olham freneticamente de um lado pro outro tentando identificar de onde vem aquele som. Alguém grita “Desliga o celular!”. Outro grita “Que falta de educação!”. O dono se finge de morto e não dá sinais de que vai fazer com que o celular pare de tocar e assim se identificar perante a platéia. Uma moça da produção (não sei se da peça ou do teatro) corre freneticamente na direção do som e pára perto do local onde o som está sendo gerado, tentando identificar qual é o espectador culpado. No palco, Caco Ciocler diz “Espere um minuto!” e Nelson Peres interrompe o seu texto. A platéia aplaude freneticamente enquanto diversos impropérios são ditos. A moça da produção finalmente identifica a dona do celular, pega a bolsa da fulana, tira o celular de dentro e desliga o aparelho. Caco Ciocler encerra então o episódio dizendo a Nelson Peres: “Agora sim! Fale, Gregório!”
Tosses da esquerda. Tosses da direita. Tosses da frente e tosses de trás.
A moça da produção corre de um lado para outro com copos d´água. Ela tenta identificar na platéia os torcedores roxos, ops, tossedores roxos, e lhes oferece a água na tentativa de que eles não morram asfixiados.
A água não é suficiente e as tosses recomeçam. Da esquerda. Da direita. Da frente. De trás.
Eu fico com vontade de tossir. Percebo que é psicológico. Talvez seja alguma necessidade de aceitação entre meus pares que me leva a querer tossir. Respiro profunda e silenciosamente e a vontade passa.
As tosses surgem de todos os lados. Se elas fossem acompanhadas de algum efeito luminoso eu tenho certeza que teríamos um belo show de luzes.
Para não deixar as tosses dominarem sozinhas os teatros, as cadeiras voltam a ranger. Mas a competição é desleal e as tosses vencem facilmente.
Alguém grita “Como tem tosse essa gente!” É a deixa pra surgirem dois novos tipos de tosse: a tosse fingida e a tosse de provocação. Algumas tosses passam a ser mais tímidas, mas, infelizmente, não por muito tempo.
Ouço um barulho de caneta correndo contra o papel. Presto mais atenção e descubro que este barulho é de minha responsabilidade. Tento ser mais silencioso pra não provocar as tosses.
No palco alguém comenta que a personagem do Imperador Constantino morreu engasgada. Tenho certeza absoluta que deve ter sido porque engoliu a tosse… Alguém fala algo sobre a religião ser o ópio do povo. Eu não consigo deixar de pensar que o povo precisa mesmo é de xarope.
Vai aí?
Em algum lugar à minha esquerda um senhor começa a comentar a peça como se ele estivesse em casa assistindo às Olimpíadas. Quando algum ator fala algo sobre tremores de terra, o senhor completa: “É Poltergeist”. Repete algumas palavras de final de frase, criando um eco ao texto dito pelos atores. Aqui e ali perde um pedaço do texto e não se faz de rogado: “Contemplando o quê?”, ele pergunta alto. Não ouço a resposta, que deve ter sido baixinha, ouço somente a voz dele em seguida: “Contemplando os escombros! Ah! Entendi!” O eco, entretanto, tem sua intensidade aumentada e ele passa a repetir mais e mais palavras conforme o espetáculo progride. O eco também assume características onomatopéicas. Quando uma personagem bate um cajado no chão, o senhor completa “Tum!”. Em outro momento ele discute a estrutura narrativa: “Já estamos perto do fim!”. Para o meu espanto, ele não tosse uma única vez… um deslocado!
A peça termina. Caco Ciocler agradece em nome de todos. Informa que a apresentação de hoje é a última da temporada desta peça. As pessoas aplaudem de pé. Muitos gritam “Bravo! Bravo!”. Subitamente, o Caco Ciocler se contorce e tosse fortemente, a ponto de quase se engasgar. Bem… talvez esta última tosse tenha sido somente parte da minha imaginação.
1 platéia que emudeceu Ibsen
Publicado em 26, August, 2008

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