Crítica | José e Seu Manto Technicolor por Valmir Júnior
Quando cantar não espanta males
Foto: João Caldas
Dizia o grande sábio: “A fila anda”. Leia e entenda o porquê. O espetáculo a ser resenhado? José e Seu Manto Technicolor. Pode parecer, mas não se trata exatamente de um espetáculo teatral daqueles do gênero “teatro musical”. A melhor definição seria “show”. A partir daqui, leitor, não se incomode se eu abrir vários parênteses.
Sim, porque o musical de Andrew Lloyd Weber (que cometeu uma série de musicais e é conhecido por O Fantasma da Ópera) e Tim Rice (ganhador do Oscar por muitas trilhas sonoras, como a do desenho O Rei Leão) não tem respiro (mentira, o espetáculo tem um intervalo de 20 minutos - 20 minutos!!!), não tem conflito, não tem personagem construída, não tem nada da estrutura do drama. Só música, gente dançando, figurinos da 25 de março e cenários que sobem e descem do urdimento do Teatro Sérgio Cardoso. Talvez tenha sido um problema da direção de Iacov Hillel (que é professor da ECA/EAD, fique bem registrado). Mas não saberemos se quem escorregou na banana foram os criadores ou o encenador, pois o programa e o rilise registram que Hillel quis manter a partitura e a história de Weber e Rice.
O que pode ser contado é que a história trata de José (Rafael Zolko), o filho predileto de Jacó (Gilbert), que recebe um presente de seu pai: o tal manto tecnicolor do título. Ah, tecnicolor, leitor, é porque o manto tem muitas cores, um arco-íris praticamente. Os irmãos sentem inveja de José e, numa cilada, entregam-no a um senhor de escravos. Eis que ele consegue, depois de desventuras, se transformar em faraó do Egito e… Bom, não vou contar a história inteira que mais parece uma viagem de LSD na cabeça de Claude ou Berger (do musical Hair). Cabe somente dizer que é tudo pretexto para números musicais com a finalidade de famílias e crianças aplaudirem ao final de cada um deles, além, lógico, de tocar diversos ritmos, como pop, calipso (”disse” o rilise) e rock (com a participação especial de Elvis Presley como o Faraó ou vice-versa - !).
Desculpe, leitor, por escrever muitos parênteses. É que são tantos os detalhes para falar… Voltando: o mérito da atuação, se é que há, cabe mais à aparição dos 11 irmãos de José do que a ele mesmo, já que Rafael Zolko não demonstra carisma. Gilbert (que você deve lembrar mais da novela Esperança) aparece pouco e só se pode falar de seu registro vocal. Fortuna é uma grande cantora, mas sua personagem, a narradora, é dispensável. Do restante, temos os coristas, os bailarinos com a incrível função de dançar (claro!) e preencher o palco (também preenchido pelo cenário gigante) e as crianças que assistem a narradora contar a saga impossível de José.
Só não entendo algumas coisas: a obsessão por “lá, lá, lá, lá” nas canções; a “atitude de musical” que os atores assumem, tornando-se grandiloqüentes, sempre abrindo os braços e fazendo expressões estereotipadas; a outra obsessão por sempre terminar um número com a extensão de uma palavra como, por exemplo, “es-treeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee-laaaaaaaaaaaaaaa - pã!” (sendo o “pã!” final aquele estrondo de “acabou a música”) e, finalmente, por que sempre usar balé nas coreografias, que ainda por cima, são pouco inventivas? Não entendo. Por isso, não espere teatro, espere show. Para famílias. E, como eu disse ali em cima, “a fila anda”. Next!
200 pessoas em cena e nenhum espetáculo teatral
Publicado em 6, August, 2007

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