Crítica | Júpiter - Conquista da galáxia por Fabrício Muriana
A nova roupa do rei
Antes mesmo do show começar, somos recepcionados por uma trilha sonora que dá o tom do que será apresentado na seqüência: Tommy Gun (The Clash), Basket Case (Green Day), Are you gonna be my girl (Jet) e I Love Rock n’ Roll (Joan Jett e os “corações negros”) são só alguns dos clichês da música pop utilizados para iniciar o espetáculo Júpiter - Conquista da Galáxia, do grupo japonês Condors.
Meu repertório pra comentar sobre dança contemporânea tende ao nulo, mas fica claro, desde a trilha sonora inicial, que eu não tinha tomado a quantidade adequada de Lexotan pra assistir essa peça. Não há, do início ao fim, qualquer indício de uma busca por reflexão crítica com a obra apresentada. É aquela história do humor pelo humor mesmo. E os caras são engraçados, não há dúvida, mas é como se tudo - cultura oriental, ocidental, vídeos publicitários, música pop - virasse um grande pastiche entregue com o intuito de fazer rir.
Este é mais um caso de espetáculo que não pode, de maneira nenhuma, ser considerado ruim, por ser tão revelador de um “sistema”. Todas as escolhas escondidas por trás do que é apresentado revelam o esvaziamento de um circuito internacional das artes e do público que o freqüenta e sustenta. Com o verniz de cultura japonesa contemporânea, o espetáculo parece Monthy Python, parece com televisão japonesa, parece com vídeos amadores do youtube, parece dança contemporânea, às vezes parece até teatro, mas tudo vem pasteurizado (tipo leite, manja?), sem qualquer perigo de contaminação. E isso chega em São Paulo por meio do Cena Estrangeira, que é um programa bacana (trouxe até o Leo Bassi pra cá no ano passado), criado pela Secretaria de Estado da Cultura e produzido pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA) (oi?!), mas que em 2008 abre sua programação com essa homenagem torta ao centenário da imigração japonesa no Brasil.
Não vejo razões para fazer outras descrições do show, mas indico com veemência que você, digníssimo leitor da Bacante, vá assistir essa peça. Ela estará em cartaz na Mostra de Teatro Contemporâneo do Festival de Curitiba, entre os dias 20 e 23 de março, e você não pode perder a chance de refletir sobre os porquês disso tudo - peças gringas que aportam aqui, a relevância de algumas escolhas dos festivais e seus critérios, o sentido da arte contemporânea e, é óbvio, o quanto você conhece de música pop.
1 crítica do New York Times gostou muito da peça, segundo o release.
Leia também o texto de Deborah Rocha, sobre a Conquista das Galáxias.
Publicado em 18, March, 2008

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