Crítica | Lesados por Juliene Codognotto
Os Onipresentes
Foto: Divulgação.
Não contentes com a peça Lesados, que ficou em cartaz no teatro Nelson Castro, o Grupo Bagaceira de Teatro, de Fortaleza, realizou uma performance no Não-Lugar, espaço em que os artistas dançam e se pegam nas noites do FIT. Mas não pararam por aí e, aproveitando a brecha dada por Tempo.Depois, deram uma passadinha pelo palco do Teatro Seta também. A culpa deve ser do tédio, tema central de Lesados que, em perfeitos 45 minutos, expõe a mesmice cotidiana, a busca pelo não-sei-o-que e os medos que nos mantêm paralisados diante das possibilidades. Tudo isso com os quatro atores sentados em altas estruturas metálicas durante quase todo o espetáculo e bocejando durante boa parte dele.
Divertida e rápida, a peça questiona a banalidade e a mecanicidade da vida, que nos leva à imensa dificuldade em encontrar significados. Por isso, os personagens bocejam. Por isso, não saem do lugar. Por isso, constroem e desconstroem Deus, chegando ao ponto de acreditar que eles mesmos são Deus. Talvez ser Deus possa dar algo a fazer ou a pensar…
Mas nada adianta e vemos que a coragem para se jogar (seja em busca de uma morte consoladora e confortável ou em busca de uma aventura que mude tal monotonia) se esvai rapidamente, a medida que um transfere a iniciativa para o outro, já que é tão mais fácil esperar do que ser o primeiro. Deste modo, o lema acaba sendo mesmo o que é expresso pela música mais engraçada do FIT: “andei, andei, andei, andei e cansei, cansei, cansei, cansei e sentei, sentei, sentei, sentei e deitei, deitei, deitei, deitei e dormi, dormi, dormi, dormi e sonhei, sonhei, sonhei, sonhei que andei, andei, andei, …
Na mesma linha da busca por significados para a vida e, conseqüentemente, por relações verdadeiras em detrimento da solidão que a modernidade impõe, a performance Estranhos, apresentada sábado à noite no Não-Lugar, é breve e inquietante. Dois homens, interpretados por RGs movidos pelos dedos dos atores, se encontram ocasionalmente. Na ânsia por conquistar um amigo, um deles ameaça o outro com uma arma até que ele diga de onde eles se conhecem. Quando o homem abordado cede, fingindo conhecê-lo, o jogo se inverte e é o segundo quem passa a ameaçar o primeiro. Finalmente, sem armas nem ameaças, os dois acabam assumindo a solidão em que vivem e a vontade de serem amigos. Solidão também pode ser uma das motivações para a segunda parte da performance, em que um sujeito triste, porém engraçadíssimo em sua caracterização, tenta se matar com um revólver de onde, ao invés de bala, sai um jato de água.
Com tantas participações, o grupo cearense mostra, com personagens insanos e lesados, o vazio das nossas vidas e relações. E a gente ri…
3 bocejos em seqüência contagiante
Publicado em 16, July, 2007

4 Comentários
Pular para o formulário de comentário | comments rss [?] | trackback uri [?]