Crítica | L’Oratorio d’Aurélia por Maurício Alcântara
A Mágica ao Contrário

Foto: Richard Haughton.
Apesar da programação regular do teatro do SESC Vila Mariana ser, em geral, meio esquisita, as poucas lembranças que tenho de espetáculos gringos apresentados naquele palcão (em geral “emprestadas” dos festivais que passam pelo país) são muito positivas. Esse foi o argumento que me fez comprar ingresso para L’Oratorio D’Aurélia, totalmente às cegas. Então começaram a pipocar indicações e comentários e, ao pesquisar mais sobre o que eu veria da platéia mais bem-vestida da rede SESC, descubro que a Aurélia em questão é Aurélia Clementine Oona Moorine Hannah Madeleine Thiérrée.
Mais do que concorrente de Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon Bragança e Orléans - nossa querida Bebel - ao Prêmio Bacante 2009 de nome mais comprido do universo, Aurélia é também neta de Charles Chaplin e bisneta de Eugene O’Neil. Já pensou que partidão?
No palco, a mocinha com cara de sapeca, na companhia de um ator/bailarino e mais três moças que se encarregam de multiplicar seu corpo, desenvolve um espetáculo em que o que mais se destaca não é o teatro ou a dança, mas sim técnicas circenses como o ilusionismo e contorcionismo, além da manipulação de bonecos diabólicos. Facilmente classificável como “circo novo”, que incorpora linguagens como dança e teatro às técnicas circenses formando obras híbridas (e que já nem é tão “novo” assim), a peça tem como proposta encantar: seja pela riqueza das imagens que se formam, seja pelo humor inocente e delicado com que se desenvolve (que muitas vezes lembra o Chaves - e não há nada de pejorativo na comparação).
A sensação é a de assistir a um espetáculo circense que, ao contrário de certos circos canadenses superrouanetfaturados por aí, cativa não pela capacidade de fazer o impossível, mas de divertir o público surpreendendo-o a todo momento com aquilo que é radicalmente possível - e que mesmo assim consegue ser inusitado. Aurélia assume que nada tem a pretensão de esconder “truques” do público, e é nesse contexto que a verdadeira mágica acontece: a platéia embarca num exercício de mais imaginação e fantasia do que de credibilidade (ou incredulidade). Flores inesperadamente colocadas ao contrário em um vaso, por exemplo, encantam e surpreendem muito mais do que qualquer coelho tirado de uma cartola - e esse tipo de ilusão Mister M nenhum consegue desvendar.
No final da peça ficam questões relacionadas ao contexto, aos “porquês” de tudo o que vemos: quem é e do que foge aquela mulher que responde pelo mesmo nome da artista? O que diz a mensagem de secretária eletrônica em francês que abre o espetáculo (desculpaê, eu não falo francês)? O que causa esse mergulho onírico no período de tempo entre tal recado gravado e uma nova ligação telefônica que fecha a apresentação? São perguntas que a forma asumida pelo espetáculo não faz questão de responder, abrindo ao público a possibilidade de criar suas próprias respostas. Isso se o público estiver afim de inventar tais respostas - caso contrário, pode ser que a forma do espetáculo já dê conta de justificar tudo como um elegante espetáculo de entretenimento.
4 voltas de trenzinho
Publicado em 17, June, 2008

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