Crítica | Metegol por Valmir Júnior
Jogo varonil? Tsc, tsc…
Fotos: Flávio Colker
Conheço poucas pessoas que não se esbaldam de torcer por um time de futebol, nem que seja pela seleção brasileira numa Copa do Mundo. Mas conheço também aquelas que dizem não gostar absolutamente de um jogo em que, dizem, 20 marmanjos correm atrás de uma bola e 2 lutam para agarrá-la. O futebol é uma controvérsia nacional (embora seja tratado como unanimidade) em que se refletem muitas das características do brasileiro e da sociedade brasileira, inclusive politicamente; talvez por isso este povo venere tanto o “esporte bretão” (sou corintiano nas horas vagas), por identificação. Todo esse parágrafo “enrolol” é para iniciar a resenha do espetáculo Metegol.
Realizado pela Intrépida Trupe, do Rio de Janeiro - companhia que comemora seus 20 anos com esta décima montagem - o espetáculo traz tudo que normalmente se espera de uma companhia do Novo Circo: dança, teatro e circo (!). No entanto, a Trupe é diferente de circos como aquele que cobra 450 reais e virá ao Brasil com Alegria. A especialidade do Cirque Du Soleil é se enveredar por tramas metafísicas e aludir a um enredo apenas, quase nunca atingindo profundidade do tema que investiga, sempre pela superfície; ainda bem que a excelência técnica dos números e da dança nos fazem esquecer deste detalhe. Muito diferente disso, Metegol é um espetáculo que transporta o futebol para o palco de maneira muito profunda e livre de firulas, sem que você precise gastar mais de um salário mínimo para assistir.
Metegol traz todas as “fases” de um jogo de futebol: aquecimento, hino, o início do jogo, as trapaças, as jogadas, o campo de guerra, os comentaristas, os juízes, a torcida e por aí vai. O espetáculo inicia com um pebolim gigante: atores suspensos por elásticos se prendem a um dispositivo circular em suas cinturas, permitindo giros em quaisquer direções. Depois de soltos, começam as disputas, ambientadas por uma trilha sonora rápida, de batidas eletrônicas, incitando os jogadores-atores-acrobatas-bailarinos a se pegarem, se atirarem, caírem, se jogarem, pularem, chutarem. As referências são muitas, o que não me permite comentar cada lance. Mas pelo menos algumas cenas eu posso, como aquela em que os jogadores executam os movimentos em câmera-lenta, como se esperassem enquanto os comentaristas vão apontando problemas e discutindo jogadas além de, claro, comentar a vida privada dos jogadores e do juiz. Bem estilo “RRRRomááááário!”.
Em outro momento percebemos uma perseguição em que um acrobata foge de carrinhos e jogadas mal-intencionadas, formando-se exércitos que lutam uns contra os outros, auxiliados por bastões flexíveis para executar piruetas, rodopios e mortais. Por fim, não há como não comentar a cena em que uma gaiola de metal em forma de bola gira, sobe bem alto e desce, e nela os jogadores se embrenham, se soltam e executam movimentos de risco que fazem a platéia perder a respiração. Como nos momentos em que a bola faz seu trajeto em direção ao gol.
O espetáculo insiste em demonstrar as trapaças do jogo. A todo o momento há alguém disposto a puxar, dar rasteiras e atrapalhar o outro. Na verdade, um simulacro da guerra que acontece nos estádios e no campo. Metegol parece apontar o futebol como uma espécie de vale-tudo, denunciando o gosto do brasileiro por esportes que necessitam de ginga e malandragem. Ainda mais por se tratar de uma companhia carioca (essa foi brincadeira, disputa entre paulistas e cariocas é o mesmo que corintianos e palmeirenses).
No fundo, homens e mulheres são apaixonados pelo esporte por se identificarem com a gritaria, a macheza das jogadas, a disputa saudável e não-saudável que torna torcidas em verdadeiros batalhões e por esse componente que vicia a sociedade do Brasil: a contravenção, que tem gosto tupiniquim e adquire cada vez mais contornos banais. Trocando em miúdos, se ao invés de futebol tivéssemos a nossa política em cena, a história seria quase a mesma (viu, Jandira Martini?). Mas os golpes políticos tem menos a ver com competições do que por interesses vis e mesquinhos. Caso o espetáculo versasse sobre o Palácio do Planalto e seus caciques, o espetáculo deveria se chamar Pizza.
5 versões diferentes de tira-teima
P.S.: Se não entendeu o título, vá ler sobre o caso Richarlyson…
Publicado em 20, August, 2007

1 Comentário
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