Crítica | Miranda e a Cidade por Leca Perrechil

Uma cambalhota, duas cambalhotas, bravo, bravo!

Antes do início da peça, os alto-falantes do teatro do SESI Paulista avisam: indicado para maiores de 14 anos por conter cena de nu. O momento em questão, na verdade é uma pagação de peitinho rápida, nada muito traumatizante. No programa do espetáculo, o dramaturgo Aimar Labaki diz que o texto “foi escrito há sete anos, para adolescentes. Hoje, chega ao palco com poucas alterações, surpreendentemente sintonizada com as questões do mundo adulto brasileiro de 2008″. Não, o texto não fala de iPhone e de uma São Paulo com internet banda larga de grátis.

Fato é que Miranda e a Cidade parece mesmo ser mais voltado para crianças e adolescentes do que para um público adulto, com atores circenses personificando animais e o mar, soltando sons como “nhoinhoinhoi” e colocando no texto piadas marotas. Não que tenha alguma coisa errada em ser voltado para um público de menos idade. Mas, se isso estivesse assumido, o público adulto que foi ver uma peça com linguagem circense inspirada no texto de Shakespeare A Tempestade, não ficaria dando uma de mala quando elementos do teatro infantil entram em cena. Além disso, menores de 14 não podem ver bailarinos em espécie de andaimes e voando em cabos de aço (sabe, tipo, elementos lúdicos?) por causa de dois peitinhos? (não estou discutindo os peitinhos, e sim que a peça tem bastante a ver com platéias de pouca idade… nada contra ou a favor dos peitos)

A montagem faz parte das comemorações dos 20 anos da Cia. Circo Mínimo e traz a ilha shakespeariana contrapondo-se à modernidade e realidade da cidade grande. Na história, Próspero é um publicitário que foi para a ilha com a filha para fugir da ditadura militar, depois de ter ajudado a difundir a ideologia dos milicos. Ele é obrigado a voltar para a cidade para continuar ajudando o regime com sua genialidade publicitária, enquanto deixa sua filha Miranda protegida na ilha (tipo, salva na ignorância, como daqueles que estão alheios às barbaridades que acontecem no país). Só que adolescente rebelde que é, a menina resolve ir atrás do pai, sozinha pela cidade grande.

A dramaturgia da peça força um pouco a barra em juntar a inspiração em Shakespeare com o circo e a crítica à ditadura, que fica em segundo plano até o final da peça, na conversa entre Miranda e o pai. Depois do diálogo, ela parece virar uma jovem da geração “caminhando e cantando e seguindo a canção”, agora que está fora da ilha e da tutela do pai. Mas antes do bate-papo decisivo, pouquíssimas referências foram dadas à ditadura. Tudo parece meio encaixado, inclusive esse personagem publicitário, uma espécie de poeta com talento de “transformar merda em ouro”, que usa suas habilidades para o mal. Sim, sabemos que a publicidade ajudou os militares, Hitler, Collor, Maluf e os russos comunistas, contudo a revelação mais pro fim da peça de que Próspero é publicitário e tem o poder de enganar e criar imagens falsas apenas aumenta a impressão de uma dramaturgia confusa, que deixa diversos motes importantes para a trama apenas para o finzinho.

Em contrapartida, o mais bacana do espetáculo é a mistura do teatro com os elementos circenses. Os atores permanecem fazendo acrobacias e movimentos com o corpo durante toda a apresentação, com a ajuda do cenário composto por grande estrutura de metal, diversão na certa pra subir e descer pelos canos. E a partir daí, são criadas cenas visualmente bem construídas e representativas, como o da secretária de ponta cabeça presa em tecidos. A montagem também brinca com os ritmos discrepantes existentes entre a ilha e o frenesi da cidade e insere elementos de diferentes culturas existentes nas grandes metrópoles.

Com elementos acrobáticos até nos momentos românticos, que fariam o Homem-Aranha ficar com inveja do beijo invertido (ou pelo menos exigir seus direitos autorais), a crítica à ditadura se perde e o objetivo do espetáculo permanece obscuro: o que o grupo quer dizer com a peça? Que conseguem fazer movimentos bacanas e montar cenas através do circo? Que as acrobacias são pano de fundo pra reflexão sobre o regime militar? Que o regime militar é pano de fundo pra acrobacias? Que publicitários não prestam? Que precisamos ainda hoje sair da ilha e encarar a realidade?

2,5 publicitários na Bacante usando suas habilidades para o mal 

Publicado em 30, September, 2008