Crítica | Muito Barulho por Nada por Leca Perrechil

Uma Crítica Turística

Fotos: Leca Perrechil/Turismo no Japão

Ainda sem ter superado a frustração de ir para o Japão e não ter visto nenhuma peça lá, leio que uma companhia euro-japonesa apresentará no SESC Vila Mariana uma versão da peça de Shakespeare Muito Barulho por Nada, na língua japonesa, com legendas em português. Por mais estranho que seja imaginar isso, penso: Por que não?

Em minha incursão turística pelo teatro japonês em São Paulo, a primeira impressão é aquela recorrente quando falamos de espetáculos estrangeiros apresentados em idioma original e com tradução: o problema com as legendas. (Sim, se tivesse visto a peça no Japão, não teria esse perrengue. Sim, também não entenderia o texto). Já passamos por esse problema antes recentemente em Os Persas e no I Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo, mas não dá pra dizer que em teatro não tem como fazer legenda decente. Em La Chambre d’Isabella, peça belga que vi no mesmo SESC Vila Mariana, a tradução seguia certinho as falas dos personagens, como em qualquer filme legendado, sem atrapalhar a montagem. No caso da encenação nipônica, parecia que tinham puxado alguma tradução do texto da internet, e projetaram na parte de cima do palco (mais um daquelas peças que você sai com torcicolo). Assim, as falas não eram colocadas de acordo com o que o ator falava, mas alguns pedaços do diálogo eram projetados juntos, como no exemplo abaixo:

*
BENEDITO - Tencionais comprá-la, para tirardes informações a seu respeito?
CLÁUDIO - Poderia o mundo todo comprar semelhante jóia?
BENEDITO - Sim, a jóia e mais o escrínio. Mas estás falando seriamente, ou estás fazendo o papel de zombador, para nos dizeres que Cupido é um bom caçador de lebres e Vulcano um carpinteiro admirável? Vamos, declarai logo a clave em que precisamos ficar para que vos acompanhemos no canto.

*trecho tirado do texto original, disponibilizado pelo Domínio Público que, aliás, o próprio site do SESC indica. Talvez, pro espectador ler antes e não precisar acompanhar a legenda na hora.

Sim, os nomes dos personagens e os tracinhos também estavam na projeção. Parecia que era melhor ter levado o livro pra acompanhar, do que ficar olhando a legenda. Pra completar, o que estava escrito muitas vezes se perdia do que eles falavam, dessa forma, a frase ficava estática em diversos momentos, enquanto os japoneses não paravam de falar em cena (sabe, tipo, Encontros e Desencontros?). Toda essa introdução em relação à tradução é porque como a montagem dependia muito das falas, e o texto de Shakespeare é bem divertido, todos os problemas com a legenda descaracterizam um pouco a peça e a forma como o espectador brasileiro a assiste. Deu pra perceber isso ouvindo as risadas de algumas pessoas de olhos puxados na platéia, as únicas que não olhavam pra cima e riam quando a legenda ficava estática.

Depois de superado o trauma da compreensão do texto e ainda com meu espírito de “turista conhecendo uma nova cultura”, o que mais chama minha atenção são as diferenças entre a montagem e as peças feitas aqui. Pra começar, a trilha sonora já fazia valer a pena o espetáculo - dois músicos no fundo do palco tocando instrumentos tipicamente orientais (desculpe minha ignorância em relação aos nomes, mas tinha aquela espécie de harpa horizontal, e aquele violão com som diferente… sim, não entendo nada de instrumentos japas. Até fui numa loja de instrumentos num Shopping em Suzuka, mas só comprei uma gaitinha amarela de plástico… nada muito típico, né?). Depois, as atuações eram dramáticas e algumas caricatas e exageradas, mas parecia ser mesmo o propósito do grupo. Alguns personagens nem demonstravam tristeza quando estavam tristes. Mas como não conheço muito bem as interpretações japonesas (ainda. Pretendo voltar um dia pra lá), só posso dizer que me lembrou um pouco os programas humorísticos que passavam na televisão do Japão (passavam muitooos programas de humor lá, mas gostava mais de ver as lutas de Sumô… me falaram que os lutadores de Sumô que conquistam todas as gatinhas da parada).

Como figurino, todos usavam yucatas (uma espécie de roupão japonês) como roupa padrão (sabe, quando todo grupo usa preto, pra criar uma identidade visual? Aqui, todos usam roupão pra entrar nos personagens) e a maioria tinha leques nas mãos (acessório básico por lá, ainda mais porque no verão faz muito calor e, é claro, é mui do chique). O cenário era basicamente duas árvores semi-transparentes, feitas, pelo que parecia ser, meias-calças cor da pele, pros personagens ouvirem as conversas uns dos outros escondidos, e o público por rir das caras e bocas feitas pelo xereta nessas situações. (Já falei que os japas adoram programas de humor, né?)

Apresentada como parte das comemorações do centenário da imigração japonesa, a história dos encontros e desencontros amorosos de Shakespeare foi apenas recontada pelo grupo Théàtre du Sygne, sem nenhuma grande reinterpretação ou criação cênica, mas é bacana pra conhecer mais uma vertente do teatro japonês que não fosse o pavoroso Júpiter - Conquista da Galáxia, aquela que tinha japas que não sabiam dançar fazendo números sérios de dança. Matou um pouco da minha vontadezinha de ter visto peça no estrangeiro oriental, mas ainda quero encontrar um nô ou um kabuki por aí.

2/3 da platéia tinham olhos puxados, mas só 1/8 do público não ficou com torcicolo

Ps: As fotos dessa crítica não tem nenhuma relação explícita com a peça.

Publicado em 7, October, 2008