Crítica | O Assalto por Maurício Alcântara

Crítica Barroca ou Oração a Mefistófeles

Foto: Divulgação.

Senhor, perdoa-me pois pequei. Depois de anos, assisti mais uma vez a uma pecaminosa apresentação deste espetáculo num teatro apertado e escuro, num beco estranho do centro de São Paulo. Pois é, sexta-feira à noite, mais uma vez deixei de lado os pomposos centros de entretenimento multiplex abençoados e protegidos contra o diabo, assim como também não fui beber com os colegas de trabalho na louvação do happy-hour. Fui fraco e caí em tentação.

Confesso que senti minha fé no senhor abalada ao longo de quase duas horas - na verdade, eu já não acreditava em ti há algum tempo, e esse pecado apenas me desestabilizou ainda mais. Há quarenta anos aquele ritual foi escrito e é a segunda vez que o vejo - e desta vez me fez muito mais sentido. Perdoa-me por ter me identificado e por ter cedido às provocações, ironias, incoerências e fraquezas daquele encontro de personagens tão distintos - um faxineiro e um bancário de classe média desiludido com a vida. E com o senhor.

Ó senhor, como consigo voltar a acreditar na tua imaterialidade e na abençoada produção de valores abstratos, da mesma maneira que fui criado e da forma como minha vida era divinamente conduzida até pouco tempo atrás, ó meu deus? Como voltar a anular os pecaminosos e animalescos instintos que me conduzem a questionamentos profanos de liberdade e expressão? Como, afinal, consigo ter a sensação de gostar de fazer aquilo que me remunera, ó senhor?

Dóem-me as vontades pessoais, a busca por ritmos mais calmos. Falta-me a busca enlouquecida e objetiva pela realização profissional, pela estabilidade financeira, pela ascensão e realização profissional, pela casa própria, pelo corpo sarado, pela capacidade de sinergia e pela plena pró-atividade. É um caminho tortuoso que não consigo mais voltar a seguir cegamente e sem pretensão crítica, ó senhor. Mas para isso é preciso restaurar minha fé. Será que um dia voltarei a tê-la?

Senhor, sinto por não tê-lo em todos os momentos de minha vida, pois outrora eu a sentia completa e cheia de significados. Era na fé que eu respondia às pessoas quem eu era, o que eu fazia. E eu me sentia feliz e realizado - e me sentia um só. Hoje sinto-me esquizofrênico e perdido. Frustra-me essa busca por algo que não é necessariamente construída na fé no senhor. Perturba-me sentir essa esquizofrenia em vez de apenas vivê-la. Ah, como seria mais fácil viver sem esses pensamentos pecaminosos, sem enxergar tuas monstruosas e divinas diferenças, segregações, violências e humilhações. Ah, se eu voltasse cegamente a ser apenas mais um servo teu, como a vida seria mais leve…

Não, esses questionamentos não são decorrentes da fraqueza de sexta-feira, são dúvidas que vêm contaminando minhas crenças há muito tempo. Mas são momentos intensos e incisivos como esses da semana passada que percebo o quanto questiono se quero continuar em teu caminho. Mas tenho certeza de que não é por isso que me abandonarás, porque eu também não consigo te abandonar. Ó senhor, sabes que, apesar de tudo, por mais esburacada que esteja minha fé, por mais que minha consciência me afaste lentamente de vossos ensinamentos e por mais herege que eu me sinta, ainda estou preso a ti.

Trabalho nosso que estás no céu,
valorizada seja vossa imaterialidade.
Venha a nós o vosso ritmo,
Seja feita vossa fetichização
Assim no horário comercial como na vida particular

O salário nosso de cada mês nos dai hoje,
perdoai as nossas individualidades
assim como nós perdoamos
a quem só temos obedecido
Não nos deixeis cair em distração
Mas livra-nos da consciência crítica.

Amém.

Publicado em 11, November, 2008