Crítica | O Ensaio por Leca Perrechil
Uma metacrítica didática para uma peça didática
Fotos: Divulgação/Lenise Pinheiro
Hoje em São Paulo está um dia bonito e ensolarado para escrever uma crítica. Os pássaros não cantam, mas a tarde está agradável para exercer um trabalho não remunerado e tomar um vinho do porto… se tivesse um aqui em casa. Se eu estivesse em pé, andando, diante de um leitor, agora, explicaria para ele que esta será uma crítica didática sobre a peça O Ensaio do grupo Tapa. A primeira encenação que vi do grupo foi A Mandrágora, que mui me agradou e desde então procuro encontrar nos outros espetáculos do Tapa a mesma criatividade daquela montagem. Também falaria para o leitor que a empreitada está sendo em vão, já que tanto A Moratória quanto O Ensaio trazem em suas raízes aquele naturalismo que está se tornando, aos poucos, uma marca do grupo.
Assim como a encenação tem uma peça dentro da peça, o tal do metateatro (tipo metaliguagem, saca?), daquelas que as histórias se confundem e a crítica social vai se ampliando pra todos os âmbitos, para provocar questionamentos do tipo: “oh, acontece o mesmo na peça e na vida real? É tudo uma grande crítica social? O que é real? O que é teatro? O que é o teatro dentro do teatro?”… resolvi fazer uma metacrítica, a crítica dentro da crítica. Pra isso, uso os comentários feitos pela minha amiga Jéssica* (nome fictício para preservar a integridade física da tal) feitas na saída da encenação como uma crítica dentro da crítica, e também para mostrar que todos temos nossas opiniões (que bonito isso!). Mas podem ficar tranqüilos, assim como a peça, explicarei tudo que está acontecendo tim tim por tim tim. E para deixar mais claro, minhas opiniões não necessariamente são iguais às de Jéssica, aumentando assim minha metacrítica do tipo, “ah, será que ela pensa isso também, ou isso é coisa de Jéssica?” Sacou? Sacou?
No meio do espetáculo, às vezes olhava para o rosto de Jéssica para ver se ela estava rindo juntamente com a galera da primeira fileira (estávamos nessa fila também… aliás, o teatro do Silvio deve ser o único em que a primeira fila é a C) e ela sempre de rosto amarrado. Saindo da peça, Jéssica me perguntou como um grupo tão antigo pode fazer uma peça em que dois atores explicam tudinho na primeira cena, em uma conversa monótona, que ela achava que nunca terminaria, com tanto didatismo. Jéssica complementou que todos pareciam subestimar a inteligência do espectador, como se não tivéssemos capacidade de entender o que eles queriam, então tinham que explicar.
Jéssica também observou a fala em que um personagem pergunta se não vão ensaiar e a outra personagem responde: “você não reparou que já estamos na peça?” (ou algo assim… a memória para falas de Jéssica não é totalmente exata, mas o sentido é por aí)… “Como se ninguém tivesse reparado há muito tempo que as duas peças se misturam… o velho truque do ‘oh, uma reflete a outra que reflete a sociedade’… grande crítica social… qualquer peça de escola traz uma crítica social mais elaborada do que essa”, comentou Jé. Não sei se Jéssica pegou pesado, mas não tenho parâmetros pois minha escola não fazia tantas peças.
Sobre o uso do espelho no meio do cenário, eu e Jéssica ficamos especulando o porquê de seu uso e chegamos às seguintes hipóteses:
a) O espelho reflete. A peça é um reflexo da sociedade.
b) O espelho reflete. A peça reflete a peça. Tudo é reflexo.
c) O espelho reflete. O público reflete no espelho. Se você tem dinheiro para ver uma peça no teatro Imprensa a R$ 40,00 ou R$ 50,00 (dependendo do dia), você é a aristocracia contemporânea. Então é uma crítica a esse público aristocrata.
d) O espelho é bonito.
e) O ator tem liberdade de atuar de costas com o público vendo sua cara.
Jéssica também não curtiu muito os momentos das piadas com atores. Quando o protagonista reclamava dos atuadores da peça dentro da peça, fazendo membros da classe teatral na platéia darem risadas de identificação. Ela me falou ainda dos longos diálogos que nunca terminavam, como a da cena do bêbado dentro do quarto da ex-donzela. Em suas duas horas, faltou uma certa edição na montagem. Menos dó na hora de cortar trechos, que de tão longos diálogos em duetos, criavam certas barrigas tediosas.
Mas o que menos Jéssica gostou, além do didatismo extremado, foi da evolução da história. “Em um momento a mocinha tá lá e fala que nunca vai dar pro cara. Aí ele faz cara de coitadinho, fala pra ela ir embora que ele vai pagar os estudos dela, e aí ela começa a achar ele interessante… parece até Miss Saigon em que ela fica toda virgenzinha e dorme com o moço logo de cara”… Tá, Jéssica se revoltou um pouco nessa hora, mas a trama investia bastante energia em todos os tipos de planos diabólicos usados geralmente para separar casais na dramaturgia brasileira televisiva e nos roteiros de Hollywood (tá certo que a história é mais antiga do que as referências citadas, mas não consigo deixar de associar e pensar que com o constante uso, essas demonstrações de maquiavelismo ficaram desgastadas). Vamos às estratégias do mal (imagine alguém esfregando as mãos e falando uahahaha):
Passo 1 para separar um casal apaixonado: Esposa esconde seu anel e insinua que foi a criada (no caso, a mocinha). (nessa caso, a vilã de Titanic teve mais sucesso).
Passo 2: peça para um amigo seduzir ou estuprar a mocinha.
Passo 3: Fale para a moça que o Don Juan grisalho, depois de tirar sua virgindade, fugiu do compromisso e deixou um cheque para recompensá-la. (Lembra daquela novela Chocolate com Pimenta?)
Tudo isso foi para dizer (uma peça longa merece um texto longo… ou não? Ai, que crise…) que os personagens são cínicos, a peça traz aquele toque de cinismo da aristocracia e faz crítica social e os aristocratas têm suas próprias regras e podem jogar seu próprio jogo e a mocinha se ferra porque é uma peça com crítica social e o texto de Jean Anouilh é inédito no Brasil e o Tapa tá trazendo procê esse ineditismo e a peça dá seqüência ao projeto do grupo de analisar a classe dominante com viés crítico e está no teatro Imprensa, e que é muito importante ir num teatro tradicional de Sampa antes que ele pegue fogo e no hall do teatro tinha uma exposição do Oscar Wilde com frases sobre as quais Jéssica fez um comentário do tipo “sempre pegam frases de pessoas importantes, tiram do contexto, e as frases viram de auto-ajuda”.
Se quiser ler a sinopse da peça e as interpretações feitas por um release, clique AQUI. Nesse momento, forneço com o link todo o serviço do espetáculo, praqueles que acham que crítica e guia têm a mesma função de serviço, exerço crítica da crítica com crítica e metacrítica, inclusive o didatismo, e fico pensando se valerá a pena assistir a próxima montagem do Tapa ou a sombra de A Mandrágora continuará sendo pra mim uma exceção.
1 Jéssica encabulada forçada a aplaudir de pé, já que estava na primeira fileira
Adendo: Se você gostou das observações da Jéssica e quer trocar umas idéias com ela, é só escrever para jessica@bacante.com.br. Se você ficou revoltado com o que foi escrito e quer dar um Tapa em alguém, ficamos felizes por esta não ser uma crítica sobre o grupo Espanca!
Publicado em 25, August, 2008



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