Crítica | O Natimorto - um musical silencioso por Juliene Codognotto

Mário Bortolotto e Lourenço Mutarelli - um diálogo possível

Foto: Nelson Kao

(Ao telefone)

Bortolotto: A gente podia marcar num boteco. Cê joga sinuca?

Mutarelli: Então, cara… será que pode ser num café?

(Depois de alguma negociação, os dois se encontram na casa de Nilton Bicudo, ator que viria a protagonizar a peça adaptada por Bortolotto da obra de Mutarelli. Niltinho é também uma espécie de clone rejuvenescido de Mutarelli, o que pode ter influenciado na seleção do elenco.)

Bortolotto: Porra, encontro com queijinho e vinho é fresco pra caralho, né, cara?

Mutarelli: É que a água não mais purifica, apenas abafa o mundo. Melhor vinho mesmo…

Bortolotto: Você diz isso porque você não bebe uísque… mas e aí, meu, quem você tá lendo ultimamente?

Mutarelli: Olha, eu tenho um problema grave. Há mais de dois anos eu não leio ficção, eu tenho dedicado todo o meu tempo de leitura a um assunto que eu tenho estudado. Mas os caras que me influenciaram foram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Augusto dos Anjos.

Bortolotto: Pô, legal… mas, porra, você não gosta do Charles Bukowski???

Mutarelli: (Disfarça.)

Bortolotto: (Mudando de assunto) Então, é verdade que você já trabalhou com o Maurício de Souza? Você desenhava a Mônica?

Mutarelli: Me disseram mesmo que você curte quadrinhos…

(Algumas horas e taças depois)

Bortolotto: Porra, cara! Quero adaptar alguma coisa tua, apesar de você ser meio “xarope”…

Mutarelli: Pô, Mário, é só escolher. Você é quem me diz o que é que pode dar certo no teatro…

Bortolotto: Não tem em nenhuma obra essa história do hipocondríaco? Essa que você soltou agora há pouco: “morro de medo de doença. Se corto o meu dedo, não tenho coragem de chupar o sangue. Fico com medo de pegar AIDS de mim”.

(Risos)

Mutarelli: Não, mas no Natimorto tem umas boas… eu começo falando que “apesar de ter sido advertido que em gestantes, o uso do tabaco provoca partos prematuros e o nascimento de crianças abaixo do peso normal, acendi um cigarro”.

(Risos)

Bortolotto: (Relendo trechos do livro) Boa. Me lembro de outras boas… “As transparências enganam”? “Ursos bipolares”? Porra, cara, cada piada de pai!

(Constrangimento)

Bortolotto: (Consertando) Mas bem dirigido pode ficar legal! Quero fazer essa, você fecha?

Mutarelli: Mas você sabe que não tem muita ação, né? Os dois protagonistas ficam vivendo num hotel durante toda a história.

Bortolotto: Então, cara, eu tô ligado. Por isso mesmo eu quero essa. Se eles ficam no hotel o tempo todo, nem precisa de cenário! Minha cara.

Mutarelli: Falou, mas precisa de uma atriz que cante…

Bortolotto: Não, ao contrário. A voz tem que ser bem ruim. Ela só precisa ser bonita, porque aí vai fazer ainda mais sentido quando ela cantar e não sair som nenhum.

Mutarelli: É… por isso que a mulher do protagonista fica puta, porque o marido diz que descobriu um grande talento, “a voz da pureza” e a porra da voz não sai. Talvez a única pureza que resta seja mesmo o silêncio…

Bortolotto: Eu acho a pureza um grande saco.

Mutarelli: (Mudando de assunto) Podíamos fazer um musical, o que você acha?

Bortolotto: Puta, cara… musical eu tô fora.

(Silêncio)

Bortolotto: Só se for mudo.

Mutarelli: Faria sentido… com a “voz da pureza”…

Bortolotto: Cabe até no título né, cara? “O Natimorto - um musical silencioso“.

(Risos)

Mutarelli: Esquisito. Meus títulos sempre foram emblemáticos e nunca foram o que parecem querer dizer. Têm o sentido mais profundo do que aparentam…

Bortolotto: Bem, nesse caso nem tanto. Vale só pela piada mesmo.

(Algumas horas e taças depois)

Bortolotto: Cara, não tem treta se eu dirigir sem me preocupar com esse bando de conservador que freqüenta o Sesc Consolação, tem?

Mutarelli: Claro que não… eu não estou preocupado se eu vou agradar, se eu vou ser aceito ou não. Eu faço pela experiência. Acho que isso talvez, somado ao fato de eu não conseguir fazer uma coisa mais formal, acho que acaba criando o que pode ser um estilo, talvez. Mas num tenho essa intenção, entende? Ela acaba acontecendo talvez por isso, porque eu curto experimentar. É por isso também que a história fica meio doida.

Bortolotto: Caralho se é doida. O cara fica calculando em quantos dias ele conseguiria comer literalmente a mina com base no peso dela. Sem contar que ele quer ser assexuado, fala sério! Puta coisa de seminarista… Aliás, o quê que você fumou pra criar um personagem que lê tarô nas imagens do maço de cigarros?

Mutarelli: Não fumei nada, não. Minha tia lia tarô e eu aprendi. As imagens do cigarro tem muito a ver com as figuras do tarô…

Bortolotto: Sua tia? Mas não era a tia do personagem que lia tarô?

Mutarelli: Sim, mas… bem… você nunca construiu um personagem inspirado em você?

Bortolotto: Eu???

4 piadas de pai bem inseridas no contexto

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: Não acredite em tudo o que você lê na Bacante. Apesar de baseado em declarações reais, este diálogo é completamente fictício.

Fontes:

Portal do Ministério da Saúde

Em site dedicado a Lourenço Mutarelli, um texto seu para a peça O que você foi quando era criança?

No mesmo site dedicado a Lourenço Mutarelli citado acima, uma entrevista com o cara

Outra entrevista com o cara

Mais uma entrevista com o cara

O blog já encerrado de Lourenço Mutarelli

Post sobre a peça no Atire no Dramaturgo - blog de Mário Bortolotto

Em post, Bortolotto apresenta Mutarelli aos leitores do blog

Publicado em 17, December, 2007