Crítica | Os Malefícios do Fumo por Astier Basílio

Obrigado por Fumar

Foto: Divulgação

Tem um livro do escritor Ítalo Calvino chamado Por que ler os Clássicos. Fico pensando cá com minhas teclas se já não estava na hora de existir uma obra equivalente no teatro. Algo como: “Por que montar os Clássicos“. Se algum dia este livro for publicado, não se esqueçam: Wagner Moura aniversaria no dia 27 de julho.

Mas eu falava de Calvino. Ele dizia: “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Vamos aplicar esse conceito ao teatro. Quer dizer que quando um Shakespeare, um Tchekhov, um Ibsen, um Plínio Marcos são trazidos à cena é porque se quer dizer algo novo com eles? Diretores que montam clássicos notaram que há algo mais a dizer com estes textos? Pensei nisso ao sair do Teatro Santa Roza, em João Pessoa, depois de assistir à peça Os Malefícios do Fumo. A direção e interpretação ficam a cargo de Daniel Araújo. O espetáculo encerrou a noite de abertura da 14ª Mostra Estadual de Teatro e Dança da Paraíba.

O monólogo pode ser lido numa ediçãozinha muito da bonita intitulada Os Males do Tabaco e outras peças em um ato. A peça foi escrita em duas versões. A primeira em 1887 e a segunda, a que serviu de base pra montagem de Daniel, em 1902. Ou seja, quando Tchekhov pôs um ponto final em sua versão, não eram nascidos ou talvez usassem fraldas muitos dos astros da Hollywood, como Humphrey Bogart e Steve McQueen que morreriam de câncer décadas depois de terem esfumaçado de charme uma centena de filmes clássicos e contribuiriam para sacralizar a imagem de um ‘careta’ entre os dedos como algo chique, viril e adulto.

O curioso é que a montagem de Daniel Araújo foi apresentada no dia 22 de agosto de 2008, numa época em que o fumante passou de charmoso a quase criminoso. Há na montagem paraibana de Os Malefícios do Fumo, alguma referência a isso? Não. O Teatro Santa Roza, como todos os teatros do Brasil, é “ambiente livre de fumo”. Mas o cenário bem século XIX, não tinha o adesivo nem na mesinha, nem no abajur e nem na… cadeira giratória.

A engenhoca já tinha sido inventada quando Os Malefícios do Fumo foi escrita. O criador da cadeira giratória, Thomas Jefferson, já tinha batido as botas há quase 80 anos. Bem, a cadeira facilitou muito a atuação de Daniel, que ia de lá pra cá com ela. Mas o modelo da giratória era do século XXI. Quer dizer, não estava “sentando bem” aquela cadeira no cenário, né?

Mas eu estou igualzinho ao velho Niúkhin, personagem de Os Malefícios do Fumo, sempre fugindo do tema central. Meu Deus, eu só estou dizendo o nome do personagem do monólogo agora tsc… Que nem a Mariana do comercial do TSE. Mas, então, voltando: a peça é sobre o fumo? É não. Os Malefícios do Fumo, em um único ato, é sobre um velho, o tal chamado Niúkhin, que é convidado a fazer uma conferência beneficente sobre os males do tabaco. Todavia, o conferencista não consegue manter a linha de raciocínio do tema, perdendo-se em digressões infinitas e na realidade sem entender nada do assunto.

Daniel disse que tinha se inspirado no conferencista, dramaturgo, romancista, poeta, cantor de frevo e inimigo da banda Calypso e de Michael Jackson, Ariano Suassuna. O problema é que em alguns momentos, a inspiração “baixou” tanto na interpretação e o que seria uma atuação virou uma imitação. A complexidade do personagem foi se perdendo à medida em que a Daniel afundava-se num verniz humorístico beirando a caricatura. O texto vinha cheio de sutilezas e filigranas (algo como comercial de camisinha sensitive). Veja a relação que Niúkhin mantinha com a esposa, um misto dependência e desprezo. Já a relação de Suassuna e Zélia – “ah, ah, mi-nha mu-mulher” – como Daniel estava imitando – é completamente outra. Quando o ator cedeu a imitação rolou um descompasso.

Era isso: quando Daniel forçava a mão em se aproximar de Suassuna, perdia Niúkhin. Além do que as tosses, a gagueira de Suassuna, o charuto em cena, faziam o personagem aproximar-se mais de bufão do que de um “loser man”. O texto é mais irônico do que cômico, assim ria-se com o personagem – o que deveria ser bom, fosse uma comédia - e não dele – como pode ser possível pela via do humor negro. A atuação me fez lembrar Woody Allen, que dizia “em comédia, representar engraçado é a pior coisa que você pode fazer”.

A citação do Woody Allen eu peguei no Manual do Roteiro do Syd Field. Ele dizia também que era bom, ao roteirista, começar e terminar o filme estabelecendo uma ligação. Tipo, a cena de abertura mostra um rio, a final mostra um mar.

Com vocês, um final Syd Field pra crítica.

Não é coincidência, mas outro livro muito conhecido do escritor Ítalo Calvino é curiosamente Seis Propostas Para Um Novo Milênio.

Uma citação a Antunes Filho no relise do espetáculo

Publicado em 26, August, 2008