Crítica | Os Possessos por Juliene Codognotto
Falava-se tanto assim na Rússia do século XIX? ou Que história é essa de Grande Elenco sem o Juca de Oliveira?
Dos dois lados do palco, não param de entrar atores. Eles têm caras de gregos, usam penteados com cara de gregos e figurinos com cara de gregos, mas são russos. Até aí, tô adorando. Há tempos que, em muitas peças, fico imaginando um elenco maior, enorme, pra ocupar o vazio do palco com vida e um monte de olhares direcionados à platéia, tipassim, pra ficar de igual pra igual. De repente, o elenco canta. Um monte de vozes em uma língua qualquer que não precisava ser tranduzida, mas foi. Melhor não tivesse sido. Mesmo assim, o canto daqueles atores continua a fazer sentido e ecoa no teatro.
Neste momento, na sede rearranjada da Funarte - com cheirinho de novo, mas com tudo bem tradicional, afinal é um espaço sério - um projeto meio megalomaníaco (55 bolsistas! 29 atores! 11 estados! 140 lugares no teatro! Às 21h!) se concretiza no palco, promovendo um encontro grande entre um monte de atores de diferentes lugares do Brasil e o público paulistano que, apressado, aplaude quase todo fim de cena como se fosse fim de peça.
A montagem apresenta um texto irônico, cheio de pérolas e personagens instigantes e, com algumas escolhas, consegue potencializar as críticas complexas de Dostoievski à sociedade de qualquer tempo. É o caso do figurino e da idéia de ter dois atores interpretando o mesmo personagem - sendo que apenas um deles fala com som, enquanto o outro apenas treina a dicção (o Antunes iria adorar esse método de ensaio!). Radicalizada nas cenas das reuniões entre os confabuladores revolucionários, a padronização dos personagens reforça a idéia de que todos só reproduzem um discurso único empobrecido, muito pouco consciente e quase nada espontâneo. Quando, por exemplo, os confabuladores discutem com as cabeças enterradas na mesa, fica claro de maneira simples e engraçada, o quanto aquelas reuniões não são um momento de verdadeira comunicação entre eles.
No entanto, a mesma escolha de padronizar os cidadãos russos contribuiu para limitar sua construção - corpos e gestuais comuns demais empobreceram personagens poéticos como o homem que tem fascínio pelo suicídio, e fortes como a mulher aleijada que tem sonhos premonitórios, ou ainda cruéis, como o libertino que conta a experiência de ter se apaixonado por uma garota de oito anos. Poucas são as diferenças corporais entre eles e nenhuma a radicalização da sua experiência. Tanto é que alguns arroubos que parecem ser fruto da criação do próprio ator - como alternâncias absurdas no tom de voz, por exemplo - fazem o público ovacionar cenas simples mas que, por pequenas ousadias, se diferenciam das demais. Então, sem aproveitar as imagens que esses quase-estereótipos-humanos suscitam, a peça é obrigada a recorrer a monólogos e narrações-de-microfone que acreditam conseguir passar para o teatro a riqueza das palavras literárias só por meio das falas.
Numa retomada final de fôlego criativo, a montagem que, ao longo da história se leva a sério demais tantas vezes, talvez por conta da responsabilidade de reproduzir Dostoievski, dá uma pequena amostra de como pode ser descontraído o encontro entre artistas de origens diferentes sob a supervisão do engraçadíssimo - embora assustador - Antonio Abujamra. A coreografia final na hora dos agradecimentos vale mais que boa parte das cenas do espetáculo, não pelo talento para a dança dos atores, mas pela espontaneidade e vida que extravasa.
2 demônios sem forma.
Publicado em 21, July, 2008



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