Crítica | Otimismo por Marco Albuquerque
O Melhor dos Mundos Possíveis
Foto: Camila Gutierrez
Sábado. Vou assistir ao espetáculo Café com Queijo do Lume na Caixa Cultural. Não consigo, pois o espetáculo é gratuito e minha posição na lista de espera faz com que eu não tenha nenhuma chance de ver a peça (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, pois a peça será reapresentada no domingo e eu poderei voltar no dia seguinte).
Domingo. Vou pela segunda vez tentar assistir ao espetáculo e novamente não consigo pois, como é novamente de graça, a sessão novamente está lotada. (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, um mundo em que existe política pública que oferece teatro de graça pra população).
Já que estou na rua, resolvo procurar outro espetáculo teatral pra assistir. Pego o meu guia de programação cultural e procuro uma outra peça (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, pois posso escolher entre mais de 200 alternativas).
Resolvo assistir à Otimismo, baseado no texto de Voltaire (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, pois a variedade é tanta que pode-se até assistir à adaptação de um texto de um iluminista francês).
Chego rapidamente ao Teatro X, onde Otimismo está em cartaz (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, pois o trânsito de domingo à tarde comprova como a cidade tem uma eficiente política de transporte público e uma excelente distribuição de ruas e avenidas que garante acesso rápido a qualquer lugar).
Ao chegar ao teatro descubro que, mesmo paga, a peça já está lotada (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, em que a população tem a cultura de ir ao teatro e os espetáculos por toda a cidade estão cheios de espectadores ávidos por serem expostos aos questionamentos proporcionados pela arte teatral).
Apesar de lotada, a produção do espetáculo resolve garantir o acesso a todo o público excedente, e cria uma nova categoria de ingresso: o ingresso no chão. Consigo adquirir o meu ingresso no chão (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, em que os produtores dos espetáculos fazem qualquer coisa para garantir que todos possam ter acesso à cultura).
Fico esperando no foyer até o início da peça, meia hora após o horário previsto (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, um mundo em que a peça só começa quando ela estiver efetivamente pronta para começar, de tal forma que tudo possa ser arrumado e fique milimetricamente pronto pra que os espectadores possam ter a experiência como ela foi inicialmente prevista).
Durante a peça, um dos atores solta uma piada em que comenta o resultado da eleição municipal, cuja contagem de votos deve ter acabado de ser concluída (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, em que a informação está ao alcance de todos com uma velocidade surpreendente, um mundo no qual a população pode escolher de forma democrática seus governantes e um mundo no qual todos têm garantido o seu direito de representatividade, já que todos são obrigados a votar).
Volto pra casa após o término da peça. No meu caminho não sou roubado, seqüestrado ou assassinado. Também não sou escravizado, enforcado, dissecado, destroçado em quatro pedaços, não pego nenhuma doença venérea e, ainda bem, nenhum faminto resolve fatiar um pedaço do meu lombo pra poder se alimentar. (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, um mundo no qual existe segurança pública. Passo até por uma blitz policial na Rua Estados Unidos, o que comprova que a segurança está em todo lugar).
1 mundo danado de bão (cheio de hortas e bibliotecas)
P.S.1: Apesar desse texto ser uma crítica teatral, não existe mesmo nenhum comentário sobre a peça (Vivemos no melhor dos mundos possíveis, em que existe total liberdade e uma crítica teatral pode não mencionar a peça se o autor dela não estiver a fim).
P.S. 2: Apesar de constar dos créditos do programa e da divulgação, não encontro a Suzana Alves (a Tiazinha) no palco. Uma pena. Sempre fui fã dela. Talvez esse não seja o melhor dos mundos possíveis…
Publicado em 27, October, 2008


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