Crítica | Peter Pan - Todos Podemos Voar por Revista Bacante
Capitão Gancho Pop Star
Da Redação da Bacante. Colaborou o espírito Lucius.
O espetáculo começa já do lado de fora, no estacionamento. Em um mise-en-scene, o público é convidado a adentrar a Terra do Nunca a bordo de uma carruagem conduzida por pôneis (devidamente fantasiados). O cocheiro é o maestro, que na falta de uma orquestra ao vivo, movimenta a batuta conduzindo o playback grandioso que toma conta de todo o espaço. Em determinados momentos, em pausas quase brechtianas, pedem para os cavalos anões pararem e fazerem gracejos, para deleite da criançada presente. Aqui já fica um reparo: os pôneis são lentos e insuficientes, portanto, sugerimos chegar cedo, tipo duas horas de antecedência. Considerando que o Credicard Hall é longe pra caramba, vale levar um lanchinho.
O diretor argentino Ariel del Mastro afirma que essa espera é uma busca por uma forma mais brasileira de fazer o espetáculo. Vale lembrar que a obra foi originalmente produzida em Buenos Aires e agora faz temporada de frente pro esplendoroso Rio Pinheiros, importante marco da poluição paulista. Gosto de pensar no Rio Pinheiros. Ó Rio Pinheiro, Rio Pinheiros, tão perto da Vila Olímpia, tão longe do mar.
Enfim, voltando ao que interessa, há uma certa confusão na linguagem quando reparamos que o cheiro do dito rio se confunde com o cheiro do estrume dos pôneis. Nada que atrapalhe o brilhantismo dos primeiros minutos de atuação do entrosado grupo. Inclusive é pisando no mesmo estrume que entra o protagonista do espetáculo: Capitão Hook. Sim, vocês também pensaram que por ser Peter Pan, a peça seria calcada no personagem que nunca envelhece. Mas que surpresa temos ao encontrar uma releitura contemporânea tão lírica ao mesmo tempo política, ao comparar a falta de mão do capitão com a falta de dedo do nosso presidente. Não tinha como ter ficado mais brasileiro.
Com isso, a peça faz uma crítica ferrenha ao comunismo - sistema empregado por Peter Pan na Terra do Nunca, em que os meninos perdidos não precisam trabalhar e vivem atormentando a vida daqueles que realmente dão duro. Para radicalizar essa crítica, o espetáculo cobra ingressos de 50 a 150 reais. Capitão Gancho encontrou um filão mais lucrativo que saquear navios, hein?!
Devidamente acomodada nas confortáveis poltronas da sala de espetáculos, a platéia mal imagina que as surpresas da noite estão apenas começando. Surgem as crianças voadoras que nunca envelhecem, acompanhadas de uma espivetada (e seminua) fada Sininho que sobrevoa a platéia em vôos rasantes e burlescos, jogando seu famoso pó de pirlimpimpim (feito de glitter, não se enganem) sobre a platéia. Eis que, então, o subtítulo do espetáculo se concretiza: algumas poltronas da platéia começam a flutuar, para desespero de seus ocupantes. Deu dó da avózinha da terceira fileira, o mecanismo de sua cadeira emperrou no ar e ela teve de assistir o resto do espetáculo todo lá de cima.
Após a abertura da cortina a mágica realmente começa. Ou melhor, é o que a equipe da Bacante supõe, porque não estava lá para assistir. Calma, minha gente, pode botar o telefone no gancho (não no Capitão Gancho, no gancho do telefone mesmo), não é necessário ligar para o manicômio. Infelizmente a montagem em cartaz no Credicard Hall não deve ser tão questionadora assim. E a Bacante de fato não assistiu o espetáculo. “Então por quê diabos vocês escreveram isso tudo?”, vocês devem estar perguntando. Pois bem, a gente responde: ao contatarmos a assessoria de imprensa da CIE Brasil, mais especificamente uma moça chamada Luciana Stabile, fomos informados que a prioridade para os ingressos de imprensa eram para… quem já havia escrito sobre a peça.
“Mas precisamos ver a peça antes de escrever”, argumentamos, e recebemos a seca resposta “Não! Não precisam. A Folha e o Estado escreveram sem assistir!”. Uou, pegou pesado a mocinha. Como a gente ficou com medo da forma agressiva como ela nos tratou, aqui está o que ela pediu, um longo texto sobre a peça. Claro, escrevemos como deve ser feito: com base naquilo que assistimos (ou seja, nada). Talvez haja alguma discrepância na crítica, mas a gente não se responsabiliza.
Depois de tanta baboseira, vamos à parte séria deste texto (sim, na Bacante vez ou outra a gente escreve algo sério). Nessas horas, é bacana ver o quanto alguns assessores de imprensa são tão desconectados do universo em que trabalham, que se esquecem que o papel da crítica (seja esta qual for) não é a de fazer propaganda de graça em troca de ingressos, mas sim de analisar criticamente o espetáculo. A gente não fazia questão destes ingressos, e não está aqui pra escrever textos em troca de bananas, digo, convites. A gente está aqui pra analisar criticamente aquilo que achamos que vale ser analisado na cena paulistana. E olha só! Essa questão certamente é mais interessante pra gente do que ver o Leonardo Miggiorin voando por aí imitando o Robin Williams.
Valeu, Luciana.
4 bacantes junkies, cheirando pirlimpimpim
Publicado em 27, August, 2007

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