Crítica | Por Elise por Fabrício Muriana

A vida cotidiana, seus cachorros e abacates

Foto: Divulgação

O abacate (Persea americana) é um fruto de alto teor calórico, nativo do continente americano. Quando maduro, o abacate atinge de 15 a 20 centímetros de comprimento e pode chegar a pesar até 1,5 kg. Aos trinta anos, o tronco do abacateiro, árvore que dá origem ao abacate, pode atingir um metro de diâmetro e 20 metros de altura. Por isso, adverte Grace Passô, atriz, dramaturga, diretora e mulher de infância traumatizada com o convívio com abacateiros: “Cuidado com o que você planta”.

Por Elise tem início com uma dança, seguida de uma cena muda incompreensível até aquele momento. Então entra Grace, no canto esquerdo. Ela vem contar histórias. Suas falas são interrompidas por abacates que caem sem aviso (até porque não é do feitio dos abacates avisar alguma coisa). Tudo que menos se esperava naquele momento eram histórias, por mais que tivessem sido anunciadas. De fato, por um bom tempo do espetáculo, somos levados a imaginar que aqueles personagens que começam a se apresentar não estão no mesmo tempo e espaço. Mas logo, como anunciado no princípio, tudo se explica e a aparente desconexão torna-se uma forma de explicitar momentos ducaralho, sempre relacionados à vida cotidiana.

Dialogando - sobretudo em atuação - com o filme Eu, Você e Todos Nós, o espetáculo encontra formas de ser incompleto. Uma menina que precisa sacrificar o próprio cachorro. Um homem que recolhe cachorros e quer ir pro Japão. Um lixeiro que imagina estar correndo para o mar enquanto faz o seu trabalho. Uma senhora que vai revelar segredos da vida do lixeiro. Ok, aqui tá parecendo falas de trailer de filme de suspense. Mas é assim mesmo, tudo sem uma congruência, sem um “pra onde vão”. Eles simplesmente são e por isso merecem estar no palco. (Cuidado! Não tente isso em casa! Não é qualquer história em que o simples existir justifica a presença de personagens no palco).

Cenas de lirismo profundo (e por essa expressão não entenda que é uma serenata feita num submarino) são apresentadas sem explicitar uma técnica específica. Como foi falado no dia seguinte à apresentação, em encontro no Espaço Parlapatões, um trabalho corporal intenso é feito para que sobre somente o necessário. A peça nos coloca a pergunta: o que traz toda aquela empatia para o espetáculo? São os próprios atores que imprimem características muito pessoais na história? Os personagens, que trazem somente momentos memoráveis por mais que efêmeros? O jogo que se estabelece entre palco e platéia? Não há um ponto que aparecça mais e o todo surge como poesia, do início ao fim.

Por Elise foi parte do encontro Cabeça, Corpo e Membros, organizado pelos Parlapatões neste feriado mega prolongado e teve apresentação única no dia 18 de novembro. No entanto, o grupo Espanca!, de Belo Horizonte, deve entrar em cartaz com seu segundo espetáculo Amores Surdos, em algum espaço aqui de São Paulo nos próximos meses (conforme anunciado no debate). Trabalhos iniciais de grande resultado, como Por Elise, aumentam a responsabilidade para os próximos. O grupo sabe disso e relatou como “fiasco” a estréia do segundo espetáculo, nas palavras de Paulo Azevedo, ator que interpreta o coletor de cachorros. Mas estréia é uma merda mesmo, outros grupos que o digam. Mesmo assim, se a preocupação com a poética da cena continuar a mesma (e o número de abacates diminuir), já será motivo pra continuar acompanhando a trajetória do Espanca!

5 ou 6m de queda livre do abacate até o chão. Ou até a cabeça de algum ator.

Publicado em 19, November, 2007