Crítica | Primeiro Festival de Teatro Grotesco de São Paulo por Marco Albuquerque
A Praça Roosevelt vai dominar o mundo
Foto: Antônio Rocco
Esta é uma crítica parcial. Parcial porque trata de apenas um dos três espetáculos do Primeiro Festival do Teatro Grotesco de São Paulo. Cada espetáculo, por sua vez, é composto de três peças curtas, todas inéditas. Portanto esta crítica tem por matéria apenas 3 das 9 peças componentes do Festival.
Às sextas feiras estiveram em cartaz três espetáculos baseados em textos de Dionísio Neto, Sérgio Roveri e Fernando Bonassi, aos sábados foi a vez dos textos de Mário Viana, Antonio Rocco e Otávio Frias Filho. Compareci ao Next em um domingo, dia da semana em que eram apresentadas as peças Antropofagia e Fagocitose, Helena Comprimida e Urubu Quando Está com Azar que são, respectivamente, de Newton Cannito, Pedro Vicente e Hugo Possolo. O elenco do Festival é composto por Eloy Nunes, Erika Puga, Fabiano Augusto, Fernanda Chiminazo, Ivan Capúa, Laerte Késsimos, Luciana Caruso, Lulu Pavarin e Nora Toledo, e se divide entre os espetáculos, sendo que alguns deles trazem a participação de todos, como é o caso de “Urubu Quando Está com Azar”, e outros como “Helena Comprimida”, trazem apenas Érika Puga em um monólogo.
Antes das peças propriamente ditas, é importante entender o escopo do Festival: Grotesco, de acordo com o Houaiss, é, entre outras coisas, aquilo “cuja temática ou cujas imagens privilegiam, em seu retrato, análise, crítica ou reflexão, o disforme, o ridículo, o extravagante e, por vezes, o kitsch” e aquilo que “se presta ao riso ou à repulsa por seu aspecto inverossímil, bizarro, estapafúrdio ou caricato”.
A essência do grotesco é portanto atingida nas três peças do terceiro dia do Festival, pois todas são montadas por um viés inverossímil e bizarro, e procuram obter da platéia o riso e, em segundo plano, a repulsa.
Esta mesma essência aparece no prólogo, que é comum aos três dias do festival, e no qual um soldado romano e um orador travam um duelo de palavras que tem por objetivo maior avisar ao público (menção especial é dada a cardíacos e asmáticos, entre outros) que ainda é tempo de se retirar antes de presenciar o horrendo, o grotesco e o vil. Como o prólogo se estende, Laerte Késsimos interrompe a cena, trajado com um bizarríssimo figurino em que se destaca um pênis gigante (desde já forte candidato à nova categoria Yves Saint Laurent de Melhor Figurino no II Prêmio da Bacante), e informa que o público está cansado do prólogo e quer que a peça propriamente dita comece logo.
Mesmo assim, o prólogo ainda se estende mais um pouco até que finalmente é iniciada Antropofagia e Fagocitose, em que um famoso ator de televisão é entrevistado num programa de auditório e tem uma experiência inusitada ao se descolar de seu corpo, passando a assistir sua performance no programa como um mero espectador. A peça seguinte, Helena Comprimida, mostra uma mulher que, após fuçar no orkut do ex-namorado, descobre que ele está se casando com uma perua loira, e entra numa piração auto-destrutiva regada a remédios e bebida.
A última peça da noite, Urubu Quando Está com Azar, conta a história de várias pessoas que comem amendoins envenenados e morrem após violenta diarréia. Esta é, com certeza, a peça mais escatológica da noite (com direito até a coprofagia), mas é a que proporciona algumas das cenas mais divertidas e que é beneficiada pelo fato de contar com todo o elenco. É também a peça que traz um dos bordões mais filosóficos (especialmente depois de tanta diarréia): “nóis caga e anda, nóis caga e anda e, como o mundo é redondo, a gente termina pisando na nossa própria bosta”.
Nenhuma das três peças é uma revolução da dramaturgia. Algumas soluções são fáceis demais, chegando a abusar do clichê em troca do riso garantido. São, entretanto, textos divertidos e descompromissados, que fazem com que o elenco e o público riam juntos. As interpretações são necessariamente exageradas e a platéia se diverte com os excessos. De maneira geral, a iniciativa do Festival é bacana e é bom ver que existe espaço (além das Satyrianas) para peças curtas de mesma temática serem mostradas ao público. Que venha o II Festival. E que, quem sabe, as peças do I Festival reapareçam por aí para que, quem não viu, possa conferir.
27 rolos de papel higiênico
P.S. Alguém aí conferiu os outros dois dias do Festival e quer fazer algum comentário?
Publicado em 11, November, 2008


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