Crítica | Senhora dos Afogados por Maurício Alcântara
Chico + Nelson + Pizza!
Depois de muito tempo, voltei ao Teatro do Centro da Terra, aquele teatrinho que fica em Perdizes, que de centro da terra só tem o nome, pois mesmo descendo, pelo elevador ou pelas escadarias, você ainda sai num terraço acima do nível da rua. Dessa vez, fui conferir a Senhora dos Afogados, do Nelson Rodrigues. Instantes antes, fiquei sabendo se tratar de um musical - o que se confirmou quando o espetáculo se iniciou com um piano. Não preciso descrever o quanto fiquei apavorado, né?
Entrou em cena então o grande, numeroso, excessivo e exagerado (deu pra entender como era grande?) elenco, cantando Pedaço de Mim, de Chico Buarque. Primeira dúvida existencial da noite: musical errado? Não, apesar de mais pra frente ouvir um coro de Viver do Amor, e ainda, mais adiante, Que Será, que apesar de não fazer parte da Ópera do Malandro, vêm da mesma fonte.
Fico então tentando entender o porquê de fazer daquela montagem um musical. Mais ainda, por que existe essa tendência de transformar qualquer coisa um musical pra ficar mais palatável à classe média dos foyers encarpetados? Não tenho absolutamente nada contra o formato, costumo até gostar do teatro “liga na tomada e pronto” que vem da Broadway. A diferença é que em geral aqueles são criados para serem musicais, e são interpretados por atores de musicais (Daniele Winits e seus peitos com vida própria não contam).
Com isso, não quero dizer que o elenco eja ruim, porque não é. Mas existe uma grande diferença entre ter bom domínio vocal para atuar e ter talento que habilite a cantar em cena. Lembro-me de ter visto uma sabatina na TV, em que Paulo Autran falava sobre a frustração que era não ser aplaudido após um número musical de My Fair Lady, ao contrário do que acontecia na Broadway. Isso até que ele decidiu não mais cantar, mas simplesmente interpretar o texto - e a platéia veio abaixo. Outro detalhe: é no mínimo ingênuo colocar canções à força em um espetáculo que não foi concebido para ser cantado e, principalmente, não sofreu as adaptações necessárias para se adequar ao novo formato proposto.
Resultado: em alguns momentos a impressão era a de presenciar uma das apresentações do Fama, aquele programa que era apresentado pela Angélica - a que vai de táxi, cê sabe. A cada canção iniciada no piano, todo o elenco congelava - como se o tempo não passasse - e um ou outro ator soltava o gogó. E na platéia, o tempo parecia não passar de verdade - para meu desespero. Em alguns momentos, me constrangi em solidariedade aos atores que ali se arriscavam (vulgo vergonha alheia, expressão tão em voga), afinal, quem lê a Bacante sabe que sempre defendo riscos - desde que atendam mais à pesquisa teatral do que à repetição de formatos de sucesso.
Por incrível que pareça, o maior problema da montagem nem está na cantoria, mas sim em um respeito excessivo ao texto. Ok, respeito é bom e conserva os dentes - já dizia minha vó. Mas aqui, esse respeito pareceu ter criado uma distância tão grande com o texto, que impediu a apropriação das situações deliciosas criadas por Nelson Rodrigues - tornando o espetáculo textocêntrico e com pouca afinidade com o universo do autor (ao contrário, por exemplo, do que acontece na montagem de Toda Nudez Será Castigada, da Companhia Armazém, que faz uma apropriação tão bacana do texto que é difícil de acreditar que ele não foi escrito para aquela montagem).
Mas voltando a essa Senhora dos Afogados, poxa, cadê o humor peculiarmente sarcástico tão característico do dramaturgo? Cadê aquele clima de corrupção e sujeira? Cadê aqueles personagens asquerosos e canalhas que ao mesmo tempo dá vontade de esbofetear e aplaudir? Tudo isso tomou doril, não vi. O que presenciei foram atores falando - ou melhor, declamando - o tempo todo com aquele olhar perdido no horizonte, lá no fundo da platéia, em uma montagem pouco estimulante. Todos pareciam soltos, com marcações que não só transmitiam pouco, como não souberam aproveitar algumas belas imagens que se formaram (sobretudo com o coro de prostitutas). A luz era bem produzida, e oscilava entre o trivial e o “algo a mais”, assim como o figurino sóbrio, quase fúnebre, que cria muito bem o clima proposto pelo texto. Tudo, absolutamente tudo, comportadinho como em geral o teatro comercial acha que deve ser. Mas pode ser que tenha suprido as expectativas da platéia que aplaudiu de pé enquanto já devia estar pensando no caminho até a pizzaria de sua preferência.
2 horas que pareceram 19 anos
Publicado em 5, November, 2007

4 Comentários
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